Vamos tomar um café?
Paloma olhou para o nome que brilhava no telemóvel e soltou um suspiro que atravessou as paredes do apartamento. Deixou tocar três vezes; entretanto, contou mentalmente os anos desde que falara com Cristina pela última vez. Seis? Sete? O tempo passara, as vidas do grupo tinham seguido rumos diferentes. O que queria ela agora? Bem, só havia uma maneira de descobrir. Atendeu, e do outro lado a voz de Cristina atropelou-a como o comboio que passava todos os dias a dez metros da janela do seu quarto, por volta das duas da manhã.
— Vamos tomar um café? — Cristina lá acabou por perguntar, ao fim de muita, mas mesmo muita simpatia forçada.
Paloma deixou que a voz de Cristina ecoasse mais tempo do que devia. Sabia perfeitamente que, mesmo que Cristina não lhe conseguisse ver a expressão no rosto, a sua demora demonstrava incerteza. Ah, mas ela não podia, isso é que não. Durante a infância que partilharam, a Cristina tinha sido a líder da dupla delas, a que decidia onde almoçar na escola, onde se sentar nas aulas, que filmes verem juntas e quem tinha permissão para namorar com quem. Uma onda de recordações invadiu-a enquanto os seus dedos apertavam o telemóvel. Olhou para o mundo ao seu redor e perguntou-se: o que diria a Cristina se soubesse como era a vida dela?
— Sim, claro — eventualmente disse, sentando-se no sofá da sala de estar com um estrondo que até assustou a pequena. Pousou a mão sobre a sua cabeça, sentindo os cabelos ásperos com a ponta dos dedos. — Mas tenho de te pedir uma coisa. Preciso de levar a Maria, pode ser? Não tenho ninguém com quem a deixar.
Do outro lado fez-se silêncio, seguido de uma resposta efusiva que a surpreendeu.
— Mas claro que sim, Paloma! — A alegria, ou a sua falsidade, era evidente mesmo à distância. — Não sabia que eras mãe.
— Mãe? — A voz de Paloma falhou. Contemplou a pequena ao seu lado, cujos olhos ansiosos imploravam por mais festas. Engoliu em seco e, sem querer, deixou o silêncio arrastar-se tanto tempo que a voz de Cristina se fez ouvir novamente. — Ah, sim, mãe. Desculpa, tive de ir a correr para a cozinha... já sabes, coisas de mãe.
— Compreendo perfeitamente. Bem, estou desejosa de te ver outra vez. O Nuno e o Vítor também vão estar lá, e mal posso esperar por conhecer a tua filha — disse Cristina, antes de desligar a chamada.
— A minha filha? — murmurou Paloma.
Levantou-se e foi à casa de banho. Sentou-se na sanita e começou a pensar: o que raio tinha acabado de fazer? "Sou imbecil ou quê?" Pegou no telemóvel e abriu uma aplicação de redes sociais. Pesquisou pelo nome de Cristina, questionando-se sobre como é que ela teria descoberto o seu número atual — Paloma tinha mudado de número três anos antes, na mesma altura em que removera todos os velhos amigos de infância. Encontrou a conta de Cristina e reparou que as fotos eram públicas. Claro que seriam, sempre a princesa mais adorada do palácio.
Como se fosse uma investigadora, vasculhou o perfil de Cristina. Não demorou muito a descobrir que a sua antiga amiga estava casada com um homem muito atraente e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga de aproximadamente cinco e quatro anos. Olhando com mais atenção, soube que o marido de Cristina se chamava Fábio e trabalhava como engenheiro numa empresa de energias renováveis. Pareciam ter uma excelente situação financeira, com uma casa enorme a servir frequentemente de fundo para muitas fotos. Quanto à carreira profissional de Cristina, Paloma não conseguiu encontrar nada. Lembrava-se de que a amiga tinha outrora sonhado ser jornalista ou repórter, tendo inclusive frequentado a universidade com esse objetivo. No entanto, isso foi há muitos anos, e tinham deixado de se falar muito antes de qualquer uma delas terminar os estudos.
A tomada de consciência de que o marido de Cristina era engenheiro devolveu-a à sua própria realidade. Saiu da casa de banho e foi ao quarto buscar a carteira. Enquanto caminhava pela casa, o som de pequenos passos começou a segui-la. Paloma teria de pensar no assunto. Parou junto ao batente da porta, sentindo-se envergonhada pela cama ainda estar por fazer, apesar de já passar bem da hora do almoço. A Maria correu à sua frente, saltou para a cama e deitou-se ali, indiferente a tudo.
Como iria admitir à Cristina que a sua suposta filha era, na verdade, muito peluda, de quatro patas e definitivamente não humana, spitz alemão, chamado Maria Cãorie?
A seu ver, tinha duas opções, nenhuma das quais lhe agradava. Admitia à Cristina que tudo não se passara de um mal-compreendido e que na realidade a sua criança era um cão. Uma solução que a mergulharia numa banheira de vergonha, à qual ela já imaginava os murmúrios e risos da parte da outra. Ou, alternativamente, podia simplesmente mergulhar mais fundo na mentira. Sentou-se na berma da cama e começou a afagar o pelo da cadela. Porque é que as pessoas não podiam ser como os cães, que se contentavam com carinhos na barriga, uns passeios por dia e muita comida.
Pegou na carteira e retirou o Cartão de Cidadão. Os lábios contraíram-se numa linha à medida que ela lia e relia o nome no cartão. Paloma Manuela… Doutora Paloma Manuela. Trinta e três anos. Uma vida dedicada aos estudos, culminando num apartamento nos arredores de uma metrópole, sem marido ou namorado nem perspetivas de tal. Quanto a filhos, bem, bastava olhar para a aclamada criança ao seu colo, ou para os dois porquinhos-da-índia que guinchavam da outra divisão. Mas ao menos tenho um título no cartão; isso deve valer para alguma coisa, certo?
Se ao menos os pais compreendessem, talvez não custasse tanto admitir o quão perdida ela estava.
— Doutora Engenheira em Química Paloma Manuela — disse em voz alta —, tem uma bela sonoridade, não concordas, Maria? Só é pena que estou completamente à nora sobre o que fazer a seguir. Olha para onde vivemos. Efetivamente não passa de um barraco ao pé da linha de comboio. Agora vou ter de encarar a Cristina e fingir que está tudo bem, que sou feliz e tenho muito sucesso.
O telemóvel vibrou de novo em cima da mesa de cabeceira. O ecrã iluminou-se com uma notificação de um grupo novo que Cristina acabara de criar, intitulado “Reencontro dos Quatro Bandoleiros”. A primeira mensagem de Cristina continha a localização de uma pastelaria gourmet na baixa e um texto curto: “Fica combinado para domingo da semana que vem, perto das 17h! Paloma, traz a Maria, todos queremos conhecê-la.”
Paloma conformou-se. Tinha uma semana para arranjar uma solução. Os seus dedos pararam sobre o teclado, já prontos para digitar a mensagem que se repetia na sua mente. Podia inventar uma desculpa, pensou, mas no final cingiu-se a responder afirmativamente, mentindo ao revelar que também ela estava desejosa de reencontrar os velhos amigos.
Cristina escolhera a Pastelaria da Dona Adelaide, na baixa da cidade. Era um sítio pitoresco, elegante e dispendioso que, infelizmente, não autorizava a entrada de animais. Chovia naquele domingo, e Paloma dava tudo para poder permanecer em casa, refastelada no sofá com Maria e os dois porquinhos-da-índia. Ao ver as gotas a precipitar pela janela do quarto quando acordou, equacionou mesmo simplesmente cancelar o lanche. Sabia que ia acontecer porque Cristina estava na cidade durante duas semanas, e que não haveria outra oportunidade. Provavelmente essa teria sido a decisão mais correta, só que Paloma passara a semana inteira a preparar-se para aquele momento e não ia desperdiçar o tempo nem o dinheiro.
Parou à porta e esperou. Viu o seu reflexo pelo vidro molhado, admirando-se com a pessoa que a olhava do outro lado. Durante a semana, Paloma investira nela própria pela primeira vez em anos. Conseguira uma marcação apressada num dos melhores cabeleireiros da cidade e apresentava agora uma farta juba de caracóis ruivos que lhe descaíam até à linha dos cotovelos. Passara a manhã em frente ao espelho, cobrindo o rosto com maquilhagem até disfarçar as olheiras profundas de quem passava noites inteiras a olhar para o teto. Vestia um sobretudo comprido, de toque justo, acentuando as curvas que já não se lembrava de ter. Comprara o sobretudo numa loja de roupa de segunda mão no dia anterior e ao sair já sabia que era uma questão de tempo até voltar. Se era para enfrentar um trio de leões ferozes, fá-lo-ia a brilhar.
Restava apenas um detalhe. Um pormenor cor-de-laranja que, naquele momento, resfolegava timidamente dentro de um carrinho de bebés. Paloma espreitou. O fecho estava completamente fechado e uma fina lona de tecido cobria o ocupante. Subornara Maria Cãorie com um pacote de biscoitos de fígado aos quais juntara um comprimido para acalmar animais de forma a garantir que o animal se mantinha calado e quieto durante a viagem de metro até ali, mas Paloma sabia que o comprimido tinha um efeito limitado e por isso teria de se apressar.
Se calhar devia ter deixado a cadela em casa, refletiu. Mas sabia que não era possível. Desde que terminara o doutoramento e arranjara um emprego à distância, Paloma passava todo o seu tempo com a cadela. Talvez por causa disso, o animal formara um laço muito forte consigo e não conseguia estar sozinha.
Esqueceu o receio e abriu a porta. Um aroma doce a bolos acabados de fazer foi o porteiro para um templo auricolor. Paloma dirigiu-se imediatamente para a mesa redonda a um canto, de onde Cristina acenava efusivamente. Paloma desviou o olhar tempo suficiente para inteirar-se da cena na sua totalidade. Empurrou o carrinho por um chão de mármore branco, as rodas molhadas deixando um leve rasto que foi prontamente lavado por um funcionário. O espaço não era nada do que ela estava à espera, mas sim mais em todos os aspetos. Mais exagerado na decoração dourada que preenchia as paredes; mais elegante nos quatro candelabros que choviam do teto, cada um ocupando um canto da sala hexagonal; mais arrojado nos pratos que dançavam por todo o lado, transportados nas mãos de funcionários vestidos com camisas cor-de-rosa. Paloma, em qualquer outra ocasião da sua vida, jamais entraria num sítio daqueles.
Mas não fora ela a agendar, e algumas pessoas prosperam no espalhafatoso.
Foi até à mesa dos seus velhos colegas, sentando-se entre Cristina e Vítor. Cumprimentou todos antes de se sentar, mas quando Cristina pediu para ver Maria, Paloma protestou. A sua filha estava, supostamente, com uma pequena virose e não, não queria que piorasse.
— Podias tê-la deixado com o pai, Paloma — protestou Cristina, a alegria estampada no rosto. — Por falar nisso, como está o Cristóvão?
— O Cris…? — a menção ao seu velho ex-namorado apanhou-a desprevenida. Já não falava com Cristóvão há mais de quatro anos e nem sequer fazia ideia do que ele estava a fazer. O encontro da tarde já começara mal e Paloma viu-se forçada a aprofundar a mentira. Não podia dizer que o pai de Maria era o ex-namorado, já que não sabia até que ponto Vítor ou Nuno mantinham contacto com ele. E por isso fez a única coisa que podia fazer…
Inventou um namorado.
— O Cris não é o pai da Maria. Deixámo-nos há bastante tempo. Estou com outro homem, alguém que conheci durante o doutoramento.
— Como se chama? — perguntou Cristina.
Paloma fitou-a, reparando na maneira como Cristina estreitava o olhar. Estava a sondá-la?
— Pierre… é estrangeiro.
Não foi bem uma onda de riso o que atravessou a mesa; foi mais como a ondulação provocada pela queda de um seixo sobre água estagnada.
— Pierre, como Pierre Curie? — perguntou Nuno.
O tempo fora cruel com ele. As têmporas consumiram o cabelo, deixando à vista uma testa branca e brilhante que ao mesmo tempo realçava as suas orelhas exageradas, como quebrava a uniformidade das sobrancelhas castanhas. Também ganhara peso desde a última vez que se tinham visto — uns vinte quilos que tentava esconder por debaixo de uma camisa azul-bebé e suspensórios vermelhos.
Paloma não respondeu logo. Deixou que o riso, como a garrafa de água com gás na mesa, arrefecesse.
— Sim, exatamente. O que dizer? Acho que tenho um tipo.
Vítor chegou-se à frente. Encheu o copo de Paloma com a água com gás e falou:
— Porventura a tua filha recebeu o nome de Marie Curie? — Paloma acenou, pelo menos desta vez não foi necessário mentir… tecnicamente falando. — De facto, tinhas razão, Cristina. Certas coisas nunca mudam.
Sorriu-lhe, e Paloma viu o brilho nos seus olhos. Ver a combinação das cores foi como regressar ao seu corpo adolescente e às aulas de Filosofia do professor Rui. Durante anos, Paloma tivera uma paixão muito pouco secreta por Vítor, que nunca se desenvolveu em nada.
— A mulher queria ser química, estudou para ser química, e agora para além de química é doutora, meu caro Vítor — disse Cristina e ela estava… orgulhosa? Certamente não podia ser.
— Pois é — disse Paloma, ajeitando discretamente o carrinho de bebé com a ponta da bota de camurça. Sentiu um leve movimento no interior; o efeito do sedativo estava a passar mais depressa do que ela tinha imaginado. — Os anos foram duros, mas no final tudo valeu a pena. O Pierre foi uma rocha ao meu lado.
— Ele trabalha contigo na ciência? — perguntou Vítor. Aquele tom de voz, suave e focado, ainda lhe causava um arrepio na espinha.
— Oh, mas eu saí da ciência depois de concluir — disse Paloma, e felicitou-se por poder ser estritamente honesta mais uma vez. Quanto ao falso Pierre, a tarefa foi simples. Bastou trocar o nome do namorado imaginário por um ex-colega chamado Manuel, que ela sabia ainda adorar pipetas e provetas.
Depois Cristina pediu-lhe uma fotografia de Pierre e aí Paloma engasgou-se. Impulsionada pela adrenalina, abriu o telemóvel até encontrar uma fotografia do dia em que defendeu a tese de doutoramento. Tinha tirado fotografias com cada um dos seus colegas nesse dia, o que lhe permitiu adubar a mentira com fertilizante da marca Nelson, mais conhecido como o jeitoso do laboratório.
— Este é o Pierre — disse ela, sorrindo ao ver que o olhar de Cristina se estendera como uma carpete azul. Nuno bebeu um gole de café e limpou os lábios no guardanapo de papel. Expressava uma certa melancolia que não se esforçava por esconder. O café acentuou a rosácea das maçãs do rosto, fazendo-o parecer levemente embriagado.
Paloma não conseguiu senão felicitar-se. Estava tudo a correr muito melhor do que ela imaginara. Mais vinte minutos e inventaria uma desculpa para se ausentar, escapulindo-se sorrateiramente de um covil ao qual esperava nunca mais voltar.
De repente, um som abafado, que parecia uma mistura de um espirro com um ganido agudo, veio do interior do carrinho tapado.
Cristina sobressaltou-se, pousando a chávena de porcelana no pires com excesso de força.
— O que foi isso?
— Ah! — Paloma apressou-se a embalar o carrinho para trás e para a frente, seguindo um ritmo leve enquanto por dentro tremia de calor. Levantou-se, de frente para o carrinho, os olhos de Maria brilhando por detrás da lona. Engoliu ar que não existia, a vergonha da mentira aliando-se à do trauma que estava a causar à cadela. Abriu o fecho e aproximou o rosto; tentara abrir o fecho apenas o suficiente para espreitar lá para dentro, contudo, Maria Cãorie não estava interessada em meras formalidades.
A cadela lambeu-lhe a ponta do nariz e tentou forçar a saída antes de Paloma voltar a fechá-la. Ficou de pé, em silêncio, a olhar para a sua cadela, com os olhos frios como ferro. Esta estratégia tinha funcionado dez vezes melhor no passado, quando a Maria era uma cachorra e, por uma vez, parecia que a idade adulta estava a recordar velhas leis.
— Está tudo bem — disse ela, voltando a sentar-se. — É só a tosse. Eu disse que ela estava com uma virose terrível. Coitadinha, o peito está muito carregado.
À mesa, ninguém partilhava da sua indiferença. Os olhos de Cristina estavam arregalados, um medo ansioso que o açúcar e o café não conseguiam dissipar. Vítor exibia uma ligeira máscara idêntica à de Cristina, com a exceção de que a escondia um pouco melhor. Quanto a Nuno, parecia simplesmente aterrorizado.
— Posso ver como ela está por um segundo? — perguntou ele, fazendo menção de se levantar.
— Eu disse-te que ela está doente, Nuno. É melhor deixá-la em paz.
— Eu sei... mas sou pediatra de formação, Paloma, e a tosse dela não se parecia com nada que eu já tenha ouvido numa criança tão pequena. Quase parecia um cão.
— Não! — o tom de Paloma saiu mais afiado do que pretendia. Corrigiu rapidamente a postura, forçando um sorriso condescendente. — Quero dizer... não convém mesmo. O pediatra pessoal dela disse para a manter abrigada das correntes de ar. E com este tempo de chuva, o choque térmico seria pior.
Nuno fitou-a, mas não disse mais nada. Paloma voltou a felicitar-se. Conseguira sobreviver a uma tempestade que, verdade seja dita, tinha ocorrido por culpa própria. Continuava a questionar o ridículo da situação em que se metera, escondendo os lábios atrás de uma fatia de bolo de pistáchio com frutos vermelhos. Por uns instantes de calma, sentiu-se como Maria no carrinho de bebé — embalada por um zumbido constante, as únicas palavras que saíam da sua boca eram afirmações e “ohs” de admiração à conversa dos outros.
O mundo continuava a girar à volta deles, mas nenhum se segurava pela mesma gravidade. Enquanto Paloma questionava a sua própria vida, compreendia agora que Vítor padecia de problemas que a derrubariam num minuto. Os últimos cinco meses tinham sido os piores da vida de Vítor. Tudo começara com um divórcio feio e a divisão da vida de três crianças, nenhuma das quais com mais de cinco anos. Seguira-se a morte da mãe, apenas dois meses após o divórcio. Vítor não sabia se as coisas estavam relacionadas; a mãe sempre fora uma pessoa forte e saudável que, sim, fumava demasiado, mas isso nunca a impedira de nada.
— E agora, para piorar tudo, fui transferido.
— Para onde? — perguntou Nuno.
— Adivinha… para este pardieiro. Quinze anos depois de terminar o secundário, volto a casa… porra.
— Bem… — começou Paloma, levando mais uma fatia de bolo à boca. Tinha de ter cuidado, mais duas e certamente iria engordar. Mas qual era o problema, afinal? Não é como se o Vítor fosse subitamente olhar para ela com outros olhos. — Este pardieiro sempre me foi especial. Por isso é que nunca saí.
Por isso, e porque fiz uma escolha em cima de outra escolha, por cima de outra escolha. Esse era o problema de tudo, afinal. Direita no labirinto, esquerda e já não sabia o caminho de volta. Restava-lhe seguir em frente, por uma estrada desconhecida. Cada curva e decisão, uma aventura; cada aventura, um pesadelo.
Ao seu lado, Vítor sorria, o seu olhar sagaz arrepiando-a.
— Paloma, como te invejo — disse, calando-se quando reparou no olhar de choque no rosto dela. — É verdade. Tiveste coragem para fazer algo que eu nunca teria, mas que, olhando para trás, gostava de ter tido.
Paloma viu e não quis acreditar. Tanto Cristina como Nuno acenaram em concordância, com toda a pose de Cristina a desaparecer por completo. As palavras fizeram com que Paloma desse mais uma trinca na fatia. Já não gastava esforços em saborear, limitando-se a aproveitar o momento, com a sua memória a disputar um jogo de ténis entre o que se passara e o que ela recordava do seu passado.
Teria estado errada em relação ao que assumira sobre Cristina e os outros? Procurou a chávena de café, a sua ainda intacta apesar do tempo decorrido, com um fino fio de vapor a erguer-se dela. Cristina segurava a sua na mão, com as unhas pintadas a apertar firmemente a porcelana. Nuno mal se movia, a luz do candeeiro a refletir-se na sua cabeça careca e a brilhar sobre eles, apesar da chuva lá fora. E, a olhar diretamente para ela, estava Vítor. Desde que parara de falar, limitava-se a ficar ali sentado, com os dedos grossos a brincar com a sua barba grisalha.
Foi Cristina quem quebrou o silêncio:
— Bem — disse ela, encostando-se à cadeira e cruzando os braços —, seja como for, fico muito feliz por saber que estás bem, Paloma. Durante uns tempos, andei preocupada contigo. Procurava por ti nas redes sociais e não encontrava nada; nós mandávamos-te mensagens e tu simplesmente desaparecias. Mas afinal és uma mulher de sucesso, com um namorado estrangeiro e uma filha. Eu vinha com uma novidade para te contar, mas acho que afinal não precisas.
— O que é? — indagou Paloma.
— O meu marido está a expandir a divisão de novos materiais na empresa dele. Quando lhe contei que te ia voltar a ver, ele comentou comigo que estão à procura de alguém com o teu perfil… alguém brilhante, que esteja interessado no setor industrial privado.
As palavras atingiram Paloma como uma brisa fria no verão. Cristina não lhe tinha ligado por pura nostalgia, nem porque queria gabar-se da sua vida bem-sucedida. Em vez disso, queria fazer algo muito pior do que isso. Queria levar as duas de volta ao secundário e fazer de Paloma um projeto de caridade. Velhos olhos abriram-se sobre novas revelações. Cada momento em que Cristina a dominara sem que Paloma conseguisse escapulir-se atingiu-a em simultâneo. Na escola, no recreio, nas aulas de educação física, nos rapazes com quem Paloma podia ou não namorar.
Antes que pudesse responder, antes sequer de ter tempo para formular uma resposta em condições, a lona do carrinho voltou a agitar-se. Desta vez, um arranhar de unhas frenético contra o tecido fez-se ouvir, acompanhado por um latido abafado.
— Wuff!
Os outros três congelaram, interrompendo as conversas cruzadas para olhar para o carrinho e depois para Paloma.
Paloma, ao contrário dos outros, despertou. As palavras de Cristina tinham-na entorpecido, quebrando-a como uma torre de Jenga — que Cristina fazia sempre questão de ganhar. Levantou-se com um salto, pegou no carrinho e levou-o até à casa de banho das mulheres. Enquanto empurrava o carrinho, fazia-o de cabeça baixa.
Começaram-lhe a escorrer filetes de lágrimas que ela não deixaria que vissem.
— Bolas, Maria — disse, só conseguindo suprimir um grito porque mergulhou o rosto no da cadela. — Eu sabia que não devia ter vindo, mas vim. Porquê? O que é que eu achava que ia acontecer para além de passar uma vergonha imensurável?
Inspirou.
O peito doía.
Voltou atrás meses. Os dias em que andava a correr para terminar a dissertação. Cada segundo, um clique do relógio, e o prazo chegava, inexorável. Tens de te despachar, tens de acabar.
Expirou. Maria ganiu, lambeu-lhe as lágrimas e envolveu-se nos seus braços.
— Minha princesa, fazes dos piores momentos, ocasiões de alegria.
Inspirou. Não se acalmara, não na totalidade. Fixou o olhar na porta, escutou os barulhos do exterior. Alguém bateu. Uma voz feminina. Outra vez a infância e como antes era ela. Perguntava o que se passava com a criança, se Paloma precisava de ajuda. Ela tinha dois filhos, afinal, experiência não lhe faltava.
Como sempre, como sempre tens de vir aqui envergonhar-me. Paloma e Maria aproveitaram o momento. A humana beijou-a na testa, a cadela lambeu as bochechas. Depois pousou-a de volta no carrinho, limpou as lágrimas e fechou a lona. Engoliu a angústia e preparou-se para abrir a porta. Tudo se resolveria em segundos, bastava-lhe uma última mentira — tenho de me ir embora, a minha filha está doente — e nunca, mas nunca mais veria aquelas pessoas.
Adeus, Cristina.
Adeus, Nuno.
Adeus, Vítor.
Adeus, memórias da infância e da adolescência e as mentiras que a seguiam.
— Olá, Cristina — disse, ao abrir a porta, a coragem perdendo-se no olhar preocupado da velha, falsa amiga — desculpa, mas como te disse, a Maria está doente.
Cristina limitava-se a sorrir. Examinou Paloma, em seguida, o carrinho. Quando Paloma tentou passar por ela, Cristina segurou-a pela mão, levando os lábios aos ouvidos de Paloma.
— Antes de te ires embora, deixa-me contar-te um segredo. Eu não era para te convidar. Não por não querer, mas porque achava que querias estar longe de nós. — Lambeu os lábios com o nervosismo. Algo que surpreendeu Paloma. Cristina sempre fora tão confiante.
— Uma decisão que respeito. Estás no teu direito de seguir a tua vida e nenhum de nós vai fazer algo contra isso. Contudo, o Vítor foi muito insistente para que eu te chamasse. Parece que ele tinha sentimentos por ti quando éramos miúdos; sentimentos que quinze anos e um casamento de oito não foram capazes de apagar.
Paloma lutou para se manter em pé. Pelo canto do olho conseguia ver Vítor em conversa com Nuno. Sentiu os dedos de Cristina firmes no seu pulso e por um instante o mundo exterior desapareceu.
Encarou Cristina, em busca do escarnecimento habitual, a rasteira de persuasão escondida nos lábios pintados. Mas os olhos dela, apesar de carregados com familiar arrogância, pareciam livres de malícia. Pela primeira vez na vida de ambas, Cristina não estava a tentar ganhar um jogo; estava apenas a distribuir as peças.
— O… Vítor?
— Sim, ele — sussurrou Cristina, desviando os olhos para seguir os de Paloma em direção aos dois homens. — Separou-se no ano passado. Não sei o que se passou, e também não lhe perguntei. Só sei que ele não parava de perguntar por ti. Assim que foi transferido de volta para cá, procurou por todo o lado na internet uma forma de te contactar, mas tu deste o pifo e desapareceste. Felizmente, eu ainda tinha o número da tua mãe de quando éramos miúdas… ela pareceu estranhamente feliz por nós mantermos o contacto.
Ela suavizou o aperto, ajeitando a própria roupa. Uma princesa aqui, ali, em todo o lado.
— Eu sei o que pensas. Que eu gosto destes encontros porque me dá gozo gabar-me da minha vida perfeita. Bem, isso não podia estar mais longe da verdade.
Cristina pausou e, pela primeira vez desde que se conheciam, ficou a olhar para as próprias mãos.
— Achas mesmo que a minha vida é perfeita?
Silêncio. A porta abriu-se com o vento, a chuva batia contra o vidro, escondendo as luzes da cidade lá fora.
— Uma casa partilhada com um marido bajulador que idolatra o metal mais do que se importa com os próprios filhos; uma sogra melga cuja voz é mais áspera do que as suas palavras; uma irmã que não fala comigo há dez anos.
Ouviu-se um tintilar de uma mesa onde um grupo de idosas celebrava um aniversário. Ambas viram, partilhando a alegria. Por um instante, Paloma perguntou-se se algum dia voltariam a sentar-se assim, contentes.
— Enquanto isso, tu és doutora. Alguém que seguiu os seus malditos sonhos. Quando te vi entrar por aquela porta, linda, ruiva, a marchar como se tivesses conquistado o mundo… senti uma pontada de inveja, Paloma. Fizeste o que querias… sempre fizeste o que querias.
Passados alguns momentos, a cor regressou. Uma jovem Paloma a deambular pela escola com o queixo erguido, apesar das suas notas baixas e de um desempenho ainda pior. De alguma forma, ela sabia que o tempo curaria todas as feridas, mas nenhuma seria mais profunda do que o golpe na sua autoestima. A ironia era pesada o suficiente para a enterrar — uma risada forçada que teve de sufocar. Tinha tecido uma teia de mentiras estúpidas que agora a deixava sem um resquício de esperança. Como poderia encarar Vítor, um homem por quem se tinha importado — e que, pelos vistos, ainda se importava com ela —, mas que agora era forçado a ficar em segundo plano por causa de um homem inventado chamado Pierre, cujo emprego era o do Manuel e o rosto roubado ao Nelson.
Exausta de tudo, deixou-se levar pelo carrinho de bebé e pela criança que só ela sabia lá estar. Queria fugir dali e esconder-se da vergonha que sentia. Vergonha de mentir tão descaradamente por algo tão supérfluo como a noção aberrante de sucesso pessoal. Mentira que a levara a enganar os velhos amigos, e a si acima de tudo. Paloma jovem, Cristina ao seu lado, amigas no fundo, apesar de discutirem. Cristina sempre leal, mesmo quando a sua confiança roçava a arrogância. Os rapazes estavam a jogar à bola ao longe, as duas de ombros bem juntos a fofocar sobre qual dos dois era o mais bonito, o mais inteligente e o melhor namorado.
Vítor.
Para ela era sempre Vítor.
Fitou-o. Um olhar devolvido. Um sorriso, um momento que não queria perder. Pela primeira vez naquela tarde, Paloma acreditou que tudo daria para solucionar. Bastava ser corajosa e dizer a verdade. Seria honesta com Vítor e poria tudo a limpo. Com ele, com Cristina, bolas, até com Nuno saberia Deus porquê.
Por falar em limpar.
Começou a cheirar mal.
Muito mal.
A fezes.
De cão.
Com diarreia.
— Oh, não — Paloma sentiu o rosto a arder num vermelhão que nenhuma maquilhagem conseguiria disfarçar. Abriu a boca para gaguejar uma justificação, mas Cristina limitou-se a piscar-lhe o olho e a levá-la até à porta. Quando estava já para lá do limiar e as gotas de chuva caíam sobre o seu cabelo, sentiu um último toque na mão. Cristina segurava-a, voltando a oferecer-lhe um segredo:
— Não te preocupes, eu falo com o Vítor — disse, piscando-lhe o olho — e posso dar-te um conselho? Eu levaria a pequenina ao veterinário. Acho que um pediatra não é o médico ideal para um cão.