O Dia em que me apaixonei
Foi no Jardim Zoológico de Lisboa que me apaixonei. Infelizmente, foi no dia em que os animais decidiram escapar.
Num dia de sol, a minha mãe tinha-me posto um polo amarelo e umas calças de ganga bem azulinhas. Tanto quanto me recordo, foi um dia bom. Comi um cachorro no bar e bebi uma Coca-Cola bem geladinha. Daquelas que os meus pais nunca me deixavam beber em casa.
Lembro-me desse dia como se tivesse sido ontem. Trinta putos de uma terriola qualquer do distrito de Aveiro saíram de madrugada, ainda o sol nem respirava, para entrar num autocarro apertado que cheirava, lamentavelmente, a vómito. Depois veio o cheiro a suor dos trinta miúdos, o barulho selvagem de antecipação, e o motorista, como um tratador infeliz, a tentar ouvir música no rádio.
Entrámos em Lisboa ainda meio a dormir, com os viadutos de Sete Rios a crescerem por cima de nós como ossos de um dinossauro. O autocarro parecia minúsculo para aquela cidade que já respirava em engarrafamentos e discussões. O calor de Lisboa não era como o de Aveiro: era seco, sem vento, fatalista.
Lá fora passavam autocarros amarelos e azuis da Carris como peixes apressados, e o eco distante do metro fazia o chão tremer.
Peguei na mochila que a minha mãe tinha enchido até às costuras com batatas fritas, sandes do dia anterior, bolachas de água e sal e rissóis de carne… frios. Que me salvaram a vida.
Com um grito animalesco, a senhora Cláudia ordenou que caminhássemos em fila indiana, de mãos dadas. Obedecemos, embora a maioria não se poupasse em reclamar. O Pedro bufou, o Roberto chorou. Eu, para não estragar a surpresa, tive a sorte de ficar com a Clarinha.
De todos os lados, Lisboa continuava: viadutos, trânsito, gente a correr como se tudo fosse normal.
Passava da hora de almoço quando tudo começou. Já tínhamos ido à Baía dos Golfinhos, andado no comboio e no teleférico. Então ouviu-se uma sirene.
— Calma — gritou alguém. — Está tudo bem.
Não estava.
Os meus colegas começaram a correr. Uns tropeçaram e choraram, outros esconderam-se em caixotes do lixo. Eu ter-me-ia rido deles, não fosse o rugido atrás de mim.
Um leão adulto.
Os olhos eram berlindes amarelos. Congelaram-me. Tentei mover-me, fazer-me grande, como nos documentários da National Geographic. Nada resultou. Estava preso como a estátua do Marquês.
Estranhamente, Lisboa continuava ao lado: cafés cheios, pessoas a trabalhar, o Tejo indiferente a tudo isto.
Foi então que tive uma ideia.
Agarrei na mochila e tirei um rissol de carne. Lembrei-me de uma brincadeira com a nossa gata. Atirei-o. O leão saltou atrás dele como se fosse a coisa mais importante do mundo.
— Temos de nos esconder — disse a Clarinha.
Como as chitas que ganiam à distância, fomos até ao reptilário. Não vale a pena descrever tudo: cobras, lagartos, demasiadas baratas.
No meio de tudo, o meu coração batia acelerado, mas não apenas por causa da adrenalina. Olhamo-nos nos olhos, duas crianças de nove anos, longe da puberdade e da indecência e ambos entendemos o que pairava no ar. O ar húmido rodeou-nos como o véu de uma noiva fantasmagórica, cobriu-lhe os olhos verdes. Foi um momento mágico, impossível de descrever, invejável para os que não viveram. Pé-ante-pé, aproximei-me. Cada passada um trovão interno. Separei os lábios, já pronto para declamar as minhas intenções.
Então a cobra mordeu-me na mão.
A realidade voltou com um elétrico. A minha testa virou um duche de suores, o mundo ficou branco.
Com o braço sobre o meu ombro, ela ajudou-me a levantar. Disse para irmos à enfermaria. Não contra-argumentei.
Lá fora, Lisboa parecia ter regressado a 1755. Animais corriam por todo o lado: elefantes, hipopótamos, tigres, girafas e gazelas. Não havia ordem. Só liberdade.
Encontrámos uma búfala com a cria.
Se o leão me congelou e a cobra me esvaziou, a búfala fez-me correr mais rápido que qualquer café.
Foi a Clarinha quem reparou primeiro. Um atalho que levava ao teleférico. Nenhuma palavra foi necessária. Entramos no primeiro carro que apareceu. Lá de cima Lisboa esticava-se em cimento e fumo.
Fizemo-nos muito pequeninos. Ouvia-se tudo. Era como se aquela caixa de metal velha funcionasse como um amplificador do ruído. Ou eram rugidos, ou eram grunhidos, até o canto de aves. Araras escarlates esvoaçavam à nossa volta, o seu bater de asas enchendo a nossa caixa de penas perdidas. Aproveitei o momento para embalar a Clarinha. Peguei numa das penas e ofereci-lha. Ela, para mal dos meus pecados, não aceitou logo. Olhou-me de lado. Aqueles olhos verdes transparecendo dúvida e pânico.
— Aceita — disse-lhe.
Quando ela ia pegar. Quando eu achava que tudo ia ficar bem, eis que do nada, uma mão farta e peluda me rouba a pena. Os seus pelos eram quase da cor da mesma; quase, pois um orangotango é castanho avermelhado.
É também enorme, hábil e inteligente.
Com um movimento surpreendentemente veloz para um animal daqueles, saltou para o lado do teleférico. Depois vieram outros. Chimpanzés, babuínos, saguis, lémures, macacos-aranha. Uma macacada suspensa no ar.
Lá em baixo, os gorilas observavam. Como guardas cansados, sem saber o que fazer.
A Clarinha soltou um grito. Eu agarrei-a pelo punho. Puxei-a para ao pé de mim e cobria-a. Tentei fazer-me de forte, mas eu era uma tartaruga. O medo que tive, é impossível de descrever. Mas naquele momento, queria era o leão de volta. Ao menos com um rissol…
Era isso mesmo que queriam. Fiz a minha melhor imitação de um atleta, e atirei a mochila para fora do carro. Depois ri-me, vendo os animais a afastarem-se numa procura inútil pelos bens que não existiam.
No dia em que me apaixonei, demos quatro voltas ao redor do Jardim Zoológico. O que aconteceu nunca foi explicado, só sei que, no momento em que os nossos corações se cruzaram, os animais regressaram às suas jaulas. Nas notícias não disseram nada. E os meus pais continuam sem acreditar em mim. Às vezes pergunto-me: terá mesmo acontecido. Ou terei sonhado no autocarro?