A Bússola e a Montanha
Era a bússola que os guiava e os levava a qualquer local. Não importava se era para tomar o pequeno-almoço na padaria local, passar horas sentados a assistir a uma orquestra dentro de uma igreja apertada, ou até visitar os museus mais recônditos do país. Cada dia era vivido como se fosse o último; cada momento, aproveitado ao máximo. Só à noite, quando os olhos se cerravam e a respiração de um misturava-se com o ressonar do outro, é que os seus pensamentos se desassociavam. Ainda assim, os sonhos partilhados eram comuns, com os pesadelos a nascerem da ausência.
Dos dois, era quiçá Daniel o que mais lamentava a chegada da noite. Tímido desde criança, via em Guilherme a luz no fundo de um túnel que se achara incapaz de atravessar. Tinham-se conhecido anos antes, quando os cabelos ainda eram fartos e escuros, as barrigas conservadoras e a esperança elevada. Mas o tempo levou tudo – levou o cabelo com a brisa, encheu os resquícios de cinza e da esperança fez miragem, transformando-a em saudade.
Daniel olhou para a bússola que segurava na mão direita. Seguiu o ponteiro metálico em direção ao norte, pela montanha imponente que se erguia diante deles. Fora ideia de Guilherme, uma aventura pelo matagal indomável até um miradouro que poucos alcançavam. Uma recordação de quando era criança: quando Daniel deambulava sozinho pela escola, Guilherme já percorria florestas, campos selvagens, praias desertas e tantas montanhas que os pais chegaram a acreditar que um dia ele se tornaria alpinista.
Não aconteceu. Como, de resto, poucos dos sonhos se tornaram realidade.
Os meus sonhos são barcos de papel, costumava dizer quando a ingenuidade batia à porta, maravilhosos nas minhas mãos, mas afundam-se assim que encontram água.
O que fazia Daniel nesses momentos? Olhava para o amor da sua vida e sorria. Puxava-o para perto de si, envolvendo-o num daqueles abraços de urso que só alguém com o seu porte conseguia dar.
— Não digas isso, Gui — o vento levava as palavras como agora lhe pesava nas pernas —, vais voltar ao cume e vais voltar a ver o miradouro nem que seja uma última vez.
Guilherme guiava e Daniel seguia. Apesar de tudo, aquela era a sua praia, o seu território familiar e o estado de saúde não era dor suficiente para alterar isso. Atravessaram caminhos estreitos à sombra de pinheiros antigos e carvalhos destruídos. O carreiro – se é que lhe podia chamar carreiro – era, na realidade, um trilho de lama pegajosa. Chovera nos últimos dois dias, transformando o terreno num desafio que não punha apenas à prova a resistência física de Guilherme, mas também a paciência de Daniel.
Desde que Guilherme fora diagnosticado com a doença, Daniel vira-se forçado a assumir a maioria das tarefas domésticas. Em casa, era ele quem cozinhava e lavava a loiça, quem tratava da roupa e esfregava o chão aos fins de semana. No início, era tudo simples, todos os esforços valiam a pena pelo amor que nutriam um pelo outro. Mas Guilherme não melhorou, o tempo que passava no hospital foi aumentando, a sua fraqueza tornava-se mais evidente a cada dia. No início ainda contribuía onde conseguia: passava a roupa a ferro, tentava manter o pó do apartamento sob controlo. As semanas multiplicaram-se, depois os meses, depois os anos…
Enquanto o corpo de um se deteriorava, a alma do outro ardia em silêncio. Daquele amor inquebrável nasceu uma semente de ressentimento. Durante aqueles anos, Daniel perdeu tudo o que fazia ser quem era, nada mais cintilante que o sorriso. Os serões tornaram-se uma batalha de vontades, uma guerra sem fim entre mente e alma, onde as necessidades do corpo eram ignoradas até este ceder na cama, absorvido por um sonho sem descanso e um pesadelo sem fim.
A cada passo, as botas afundavam-se na lama espessa, que parecia querer agarrá-los à terra, puxá-los para trás, ancorá-los a um passado que não lhes pertencia. Guilherme, contudo, recusava-se a aceitar esse destino. Onde o corpo falhara, a memória regressava, guiando-o por caminhos seguros. Ele sabia ler o relevo. Apoiava-se nos troncos húmidos, como tantas vezes se apoiara em Daniel e subiu, e continuou a subir. Embora a sua respiração se tornasse cada vez mais ruidosa, nenhum obstáculo naquela montanha o conseguiu parar.
Ao fim de duas horas de caminhada, alcançaram um dos três parques de merendas. Daniel pousou a mochila, que só ele carregava com um estrondo, os tupperwares de plástico quase rebentaram com a força do movimento. Sentou-se, ofegante, admirando-se da compostura de Guilherme ao seu lado. Era como se Guilherme não tivesse percorrido o mesmo caminho que ele. Não naquela montanha, nem nos últimos meses.
Permaneceram numa rotina monótona até que os ombros de Guilherme caíram. Num momento de honestidade cruel, Guilherme levantou-se do sofá onde passara grande parte dos dias e gritou. Pediu a Daniel que o perdoasse por ter ficado doente, revelando-lhe que adoraria ter forças para ajudar a tratar da casa, mas que, ainda assim, não desejava trocar de lugar com ele.
— Pois eu vou morrer mais dia ou menos dia — anunciou.
Recebera o último diagnóstico três dias antes. As perspetivas eram devastadoras. A doença corroera-lhe parte do fígado, sem um transplante imediato, restavam-lhe apenas semanas.
— E prefiro que seja eu a morrer do que tu.
As palavras atropelaram Daniel. Subitamente, a exaustão pareceu supérflua. Olhou em redor, para um apartamento limpo e arrumado, uma casa que, noutra vida seria um palácio para os dois; um verdadeiro lar. Admirou-se com o estado da casa, apercebendo-se o quanto exagerara na sua reação. Mesmo doente e fragilizado, Guilherme não deixara que a vida dos dois seguisse o caminho do seu corpo. Daniel levou as palavras ao peito, aproximou-se e abraçou-o mais uma vez. Deixaram que as buzinas dos carros lá fora cantassem a sua melodia, os seus corações uníssonos marcassem o compasso da orquestra.
Daniel pousou a bússola sobre a mesa de madeira. Deixou que o canto das aves lhe guiasse os pensamentos. Olhava para o ponteiro, fiel ao norte como ele se tornara fiel a Guilherme nestes últimos tempos, e deixou que uma lágrima precipitasse. O objeto tornara-se a última constante das suas vidas: pequeno, como os dias que faltavam; robusta e indestrutível como o elo que ainda os unia. O toque no metal gelava-lhe a ponta dos dedos, recordava-lhe os dias passados na sala de espera do hospital, acompanhado apenas pela esperança de ver Guilherme voltar para junto dele como se nada tivesse acontecido. Porque é que me guias até ao destino final sem me dizer qual o caminho até lá?
Vozes alegres interromperam o seu momento melancólico. Ergueu a cabeça e franziu o sobrolho. Uma família de quatro sentara-se numa mesa próxima, as suas gargalhadas e vozes estridentes irritaram-no imediatamente.
— Daniel, não te preocupes — disse Guilherme. - Come qualquer coisa.
Apontou para a mochila aberta, mas não lhe tocou. Daniel anuiu e mergulhou entre sandes frias de ovo e atum, frutas compradas num supermercado, e pastéis de bacalhau que a mãe lhe fizera.
— Não comes? — perguntou.
— Sabes que não é necessário — respondeu Guilherme, devolvendo-lhe um sorriso de orelha a orelha. Sob a luz do meio-dia, o cabelo e a barba brilhavam. Iluminavam os olhos castanho-avelã, devolvendo ao rosto uma aparência jovial.
Como podia ele estar feliz naquele momento?, pensava Daniel cada vez com maior dificuldade. Não conseguia imaginar a dor física que assolava Guilherme, mas nada diminuía o sofrimento dele. Se num ardiam os pulmões e o fígado, ao outro apenas lhe restavam as pernas para aguentar o peso de ambos.
Provou uma das sandes. Tinham melhor aspeto quando as preparara no dia anterior, mas como tudo na sua vida, cada minuto acentuava a deterioração. Os risos da família não ajudavam. Dois adultos e duas crianças, envoltos numa troca de palavras que ele invejava. Olhava-os de soslaio, a irritação misturando-se com inveja. Quando fora a última vez que os dois se tinham perdido tão completamente numa alegria despreocupada? Antes da doença, muito antes disso.
Engoliu, fechou os olhos, apertou as mãos ao redor do pão. Não dava, não tinha mais fome. Pousou a sandes na mesa, depois olhou para trás e viu um bando de corvos pretos como a noite. As aves fitavam-no com curiosidade, os bicos apontados na direção da comida. Sentem a morte, pensou ele, olhando de volta para Guilherme. Está bem, comam.
Atirou-lhes um bocado de pão. Dos cinco corvos que o fitavam, quatro saltaram em direção à comida, enquanto o último — mais pequeno do que os outros —, manteve-se hirto, voltado para ele. O animal virou a cabeça, fazendo aquela expressão típica de aves curiosas. Outra pessoa assumiria que se tratava de um sorriso, aquilo que ele via na ponta do bico da ave. Em seguida, o animal soltou um grasnar e como os outros, mergulhou.
— Pai, pai — ouviu-se a voz de uma criança atrás deles —, aquele senhor fala com os pássaros.
Daniel voltou-se na direção da família. Sem se aperceber, o filho mais novo correra até ele. Era uma criança pequena, na casa dos cinco anos, o cabelo dourado encaracolado caía-lhe até aos ombros. Apesar da proximidade, o seu olhar não se focava nem em Daniel, nem em Guilherme, mas sim nos cinco corvos.
— Como se chama? — perguntou a criança. Atrás deles, surgiram passos apressados. Daniel sorriu ao ver o pai do jovem a correr na sua direção.
— Peço imensa desculpa pelo incómodo — disse o pai, pegando no filho ao colo. — Ele adora animais.
Daniel viu o sorriso que se formara no rosto de Guilherme. Mantiveram-se em silêncio enquanto os dois regressavam para junto da família. Quando se sentaram, Guilherme levantou-se, marchando em direção aos cinco corvos. Surpreendentemente, nenhum dos animais levantou voo quando se aproximou. No entusiasmo, baixou-se, ofereceu-lhes a mão, mas era como se não o vissem. O objetivo era um: comer, viver. Como o deles.
Como o nosso.
— Só tenho pena — começara Guilherme no dia em que a verdade viera ao de cima. Não pode continuar, Daniel não o deixaria desabar.
— Não digas nada disso. Vai ficar tudo bem, vais ver que vão conseguir tratar-te.
— A doença é terminal.
Engoliu um suspiro e desviou o olhar para ele. Então, fez algo que surpreendeu Guilherme. Foi até ao velho armário da sala e retirou uma bússola velha. Uma antiguidade familiar, passada da infância de Guilherme para as mãos de Daniel.
— Deixa que lhe chamem o que quiserem… enquanto estivermos lado a lado, vamos encontrar sempre uma solução — garantiu, um fio de lágrimas já a escorrer-lhe pelos olhos. Ao seu lado, Guilherme sorria de contentamento.
Naquele dia, o tempo parou e os sonhos voltaram. Cada um mais ambicioso do que o anterior, e cada qual com menos tempo. Daniel podia dizer o que quisesse, mas mel algum era capaz de adoçar a verdade. Guilherme sabia que o tempo era curto e queria aproveitá-lo ao máximo. Então assim foi que começou uma aventura: ganhou coragem para fazer o seu primeiro salto de bungee-jumping e atirou-se de um penhasco; foi a um estúdio de tatuagens e marcou o nome de Daniel no peito, uma recordação para a vida e para a morte, como ele fez questão de anunciar; nem todas as aventuras nasceram de tão grandes ímpetos de adrenalina. Algumas eram silenciosas, pequenas, mas carregavam o peso de uma despedida.
Como as refeições que experimentara pela primeira vez, as músicas que voltara a escutar, ou os filmes que sempre quisera ver. E, pela primeira vez na vida, Guilherme perdera a vergonha que sentia e entrou numa sala de cinema sozinho. A experiência, recordaria nessa mesma noite, libertara-o de correntes às quais não se sabia preso.
Enquanto isso, Daniel limitara-se a segui-lo para todo o lado. A felicidade do parceiro enchia-o com uma sensação agridoce.
O tempo foi passando por eles e o estado de saúde de Guilherme não piorou. Pelo contrário, parecia que lentamente, dia após dia, a cor retornava ao rosto de Guilherme, o seu corpo enchia-se, a tosse dissipava-se e a cabeça parava de zumbir. Era como se cada experiência, cada sonho finalmente vivido, ajudava-o a renascer.
— Cada momento de alegria dá-me a força necessária para aguentar o tempo suficiente para experienciar outro momento — dizia ele, feliz e contente —, em vez de me satisfazer e enfraquecer, faz o oposto. Acho que isto é viver então. Fazer aquilo o que nos faz feliz, o que precisamos, sem medo, sem receio.
Daniel vira-o renascer; contudo, não partilhava a alegria do parceiro. Começara a ser ele quem lia os e-mails e recebia as cartas do hospital de Guilherme e as palavras contavam algo diferente daquilo que os olhos viam. As semanas encurtavam-se, nenhum dador surgira a tempo e agora, nenhum transplante o salvaria.
Voltou a pegar na bússola e no norte para onde ela os guiava. O destino, por um íngreme caminho, mantinha-se uma missão aparentemente impossível. Ele sabia que não era. Bastava um esforço acrescido e tudo ficaria bem no fim. Era uma promessa que fizera a Guilherme, que se tornava cada vez mais difícil de cumprir. O amor que outrora achara suficiente para os guiar era agora uma âncora que não o deixava partir.
A ideia tinha sido sua: uma viagem até a um destino que enchia Guilherme de saudades, por caminhos que não lhe eram familiares. A expressão no rosto de Guilherme foi suficiente para saber que tomara a decisão certa e quando, no dia seguinte, Guilherme se levantara de madrugada com energia suficiente para fazer o pequeno-almoço para os dois, Daniel apercebera-se que não fora só uma boa ideia. O miradouro funcionava como uma fonte de rejuvenescimento – um oásis contra a dor.
— E vamos quando?
— No fim de semana — que não chegou, pelo menos não no dia planeado. Os imprevistos amontoaram-se e Daniel perdera a disponibilidade. A transformação de Guilherme fora rápida, o oposto da luz que o miradouro oferecera. — Para o mês que vem — garantira, sabendo que não conseguia cumprir.
A reação de Guilherme foi exatamente o que Daniel esperava. Calmo e composto, sorriu quando Daniel ofereceu a possibilidade de irem mais tarde. Interiormente, contudo, sentia-se apático e derrotado. Algumas coisas são impossíveis de esconder, e Daniel percebeu, pela maneira como o parceiro se sentou no sofá, de queixo caído e braços estendidos, que a notícia o destruíra.
Guilherme queria ir ver a natureza outra vez. Queria caminhar entre árvores, escutar o eco das aves, sentir a brisa na barba e observar javalis e veados no seu estado natural. Daniel, músico de coração, não conseguia pensar numa experiência menos apetecível para ele. A chuva dos últimos dias não ajudava.
Se não fosse o olhar melancólico no rosto de Guilherme, então nunca teria saído de casa.
Soltou mais um suspiro. Doíam-lhe as costas e as pernas; quanto aos braços, nem valia a pena pensar nisso. Desde que saíram de casa naquela madrugada de domingo, era Daniel quem carregava a mochila às costas. Ponderou pedir a Guilherme para trocar, lembrando-se que não valia a pena. Outro suspiro, ao menos naquele dia estava sol; infelizmente, o calor era infernal. Nas notícias chamavam-lhe uma tempestade tropical originária no sul, algo que para ele não fazia sentido.
Apesar de compreender a tristeza do parceiro, a vida profissional colocara-se no caminho dos dois. Daniel adiara a viagem até que já não podia, até ao momento em que era tarde de mais para tomar outra decisão.
O caminho tornou-se ainda mais íngreme, o carreiro por onde seguiam estreitou-se entre ervas altas, raízes soltas e arbustos espinhosos. Aos pássaros juntou-se a canção de grilos diurnos e assobios escondidos na natureza.
— Diz-me que não há cobras aqui — pediu Daniel, com cada passada batia os pés na esperança de afugentar qualquer potencial predador.
— Não há cobras venenosas — garantiu Guilherme, com ironia.
Trancou o olhar no pináculo alto e seguiu em frente. Cada passo era recebido com a resposta irritante da natureza. Ramos roçavam no seu tornozelo nu, vertendo sangue aqui e ali. Ainda assim, a pior parte eram os mosquitos, que voavam à volta deles no mais boémio dos banquetes. Por mais que Daniel tentasse afastá-los, isso só parecia atrair ainda mais. Em breve, o sol tornou-se apenas uma memória do amanhecer, ocultado por uma nuvem de escuridão zumbidora.
Sem darem por isso, estavam a caminhar junto a um pântano de água estagnada. Um lugar perfeito para a proliferação de bactérias e algas, mas, acima de tudo, um criadouro de mosquitos. Por um segundo, Daniel foi dominado pelo medo por Guilherme. Correu ao seu encontro, pois ele tinha ficado para trás sem querer. Assim que o alcançou, no entanto, percebeu que o companheiro estava bem, com os mosquitos completamente desinteressados nele.
— Puseste repelente? — perguntou, para uma gargalhada de Guilherme.
— Ainda achas isso? Já está na altura, não achas?
Daniel contraiu os lábios numa linha estrita. Fitou a terra aos seus pés e a poeira ao redor deles. Não queria responder àquilo, nem sabia o que dizer. Por isso, limitou-se a acenar, marchou em frente e entrou na última copa de árvores.
Felizmente, os mosquitos ficaram para trás, com o seu desejo de sugar sangue a levá-los apenas a escassos metros de distância da água. Os dois continuaram por mais uma hora antes de fazerem uma segunda paragem. Desta vez, não havia mesa nem família. Tinham ido além do percurso natural do caminho, fazendo um desvio por um carreiro mais selvagem a pedido de Guilherme.
As costas de Daniel encontraram uma rocha fria. O seu cabelo comprido e grisalho estava ensopado em suor, assim como os seus pés, que ele descalçou. Apertou o dedo grande com as mãos. Dentro dele, alguma coisa estalou. Os ossos, como o resto do corpo, queixavam-se. De cada vez que inalava uma lufada de ar, sentia o peito a arder. Não conseguia continuar.
Levou as mãos à cabeça e escondeu-se entre as pernas. Fez-se o mais pequeno que conseguia, reduzindo o ritmo da respiração de forma a diminuir a dor. Era um truque que lhe fora ensinado para lidar com estes momentos de ansiedade extrema…
Ensinado por quem?
Olhou ao redor.
Não havia ninguém.
— Gui? Onde te escondeste?
Silêncio e sol. Sombras elegantes formadas pelas últimas árvores que se aguentavam. Aquele era um sítio selvagem. Até podia ser que não se encontrassem lá cobras venenosas, mas os perigos eram outros.
Estalou algo atrás dele. Daniel levantou-se com um salto e viu. Uma silhueta quadrúpede, pequena como um leitão. Esboçou um sorriso ao ver o animal a aproximar-se. Parecia tão desajeitado ali, pequeno e indefeso naquele matagal.
O sorriso desvaneceu-se quando o resto do bando apareceu entre os arbustos, com a mãe atrás. Se as crias eram desajeitadas, a mãe era o oposto. Um par de grandes presas emergia de um focinho afunilado, cada uma capaz de lhe abrir a barriga ao meio. Daniel, sem perder tempo para pensar, virou-se e correu até à primeira árvore que encontrou.
Nunca fora um atleta — a dificuldade em trepar a montanha que o diga – mas naquele momento poderia até ter ganho a medalha olímpica de escalada. Em dez segundos, trepou cinco metros, os ramos do carvalho tremendo perante o seu peso.
Por favor aguenta comigo.
No chão, a atitude da família de javalis era o oposto. Nem a progenitora nem as crias pareciam afetadas com a presença de Daniel. O bando chafurdava a seus pés, mergulhando os focinhos na terra em busca de tubérculos e raízes. Daniel susteve a respiração. Fitou os animais que Guilherme adorava, o que o fez recordar-se que não sabia onde este estava.
— Gui! — berrou. Nas alturas sentia-se corajoso o suficiente para berrar, independentemente da fauna que o rodeava.
— Estou aqui — surgiu a resposta.
Daniel olhou para baixo, para onde os animais estavam. Guilherme estava de pé, cercado pelos animais, todos indiferentes à sua presença. Daniel engoliu em seco, fechou os olhos e abriu-os outra vez. Não conseguia acreditar no que ele estava a fazer. Guilherme sempre fora ousado, mas aquilo era demasiado. Era seduzir a morte por capricho.
— Sai daí — disse-lhe.
— Porquê?
— Olha ao teu redor, burro. Já viste os bichos? Tu próprio me disseste que um javali é capaz de matar uma pessoa com as presas.
Guilherme riu-se, uma gargalhada que se misturou com os grunhidos selvagens.
— É verdade. Contudo, Daniel, qual é o problema?
— Gui…
Qual era o problema? Quantos eram e até quando conseguiria Daniel contar sem se quebrar. Começando pelo facto de Guilherme o ter abandonado no mato para explorar sabe deus por que caminhos. Agora estava armado em David Attenborough, um com a natureza, e punha-se em perigo desnecessário. Porque é que ele tinha de ser assim? A pôr-se nestas situações horríveis, em que depois era Daniel quem tinha que o salvar. Todos os dias desde que a doença fora diagnosticada, Daniel acordara encharcado de suores com o medo de que Guilherme não acordasse ao seu lado. Saía de madrugada para trabalhar, o seu corpo carregando a dor que a mente não aguentava, e quando voltava a casa o que é que via? O homem que amava, com quem achava que iria passar o resto da vida, perdido de volta do computador ou no sofá, indiferente à realidade. Era isso que o irritava naquilo tudo. Não o facto de se ter tornado no mordomo da casa, mas a indiferença em Guilherme. Era como se não se importasse com o futuro.
Um futuro fúnebre, onde só um ficaria.
Daniel esforçara-se para o ajudar. Fizera-lhe todas as vontades e mais algumas. Até ao momento da viagem ao miradouro, quando a vida decidiu dizer que era altura de parar. Vida era um nome que começara a dar a ele próprio. O acumular de tudo acabou por derrubá-lo. O transtorno inicial da doença, seguindo-se pela falta de noção de Guilherme, as aventuras dele para espairecer cobraram o seu preço.
Segurava a bússola nas mãos sem dar por ela. Olhou para baixo e ponderou atirá-la aos javalis. Não sabia o que iria acontecer, se ia afugentar a família ou enfurecer a mãe.
— Não partas isso — disse Guilherme, lá em baixo. — Essa bússola é minha, lembras-te?
— O que queres que eu faça então?
Daniel, do topo da sua árvore, obedeceu e observou. Viu a forma como as folhas dos pinheiros dançavam com a brisa, sentiu a rugosidade da árvore contra a sua pele, os aromas das flores a desabrochar ao redor deles. Baixou o olhar para o lado selvagem da natureza, observando de perto, pela primeira vez, os javalis, não como uma ameaça, mas como as criaturas maravilhosas que eram. Uma dupla de crias brincava na lama, enquanto a mãe vigiava com um olhar atento. À beleza indomável da natureza juntava-se o chilrear dos pássaros, tanto azuis como vermelhos, e o grasnar dos corvos que pareciam tê-los seguido durante horas. Era belo, tinha de admitir, embora as presas dos javalis ainda o ameaçassem.
— Olho e vejo, uma natureza selvagem só descrita nos livros.
Uma natureza bela pela qual Guilherme se apaixonara antes de eles se conhecerem. Olhou para dentro, a mente rodopiando por memórias anteriores à doença. Ali estava ele, a tremer de ansiedade, o fato azul escuro encharcado pela transpiração, e ao seu lado, Guilherme, que naquela altura era a muleta do coxo. Seguiu-se o toque na bússola que ele tinha guardado no bolso das calças. Por mais que quisesse, não conseguia larga-la.
Esta bússola indicará sempre o caminho, garantira Guilherme noutra vida, saberás sempre como chegar ao norte.
Por fim, a família de javalis afastou-se. Daniel aguardou um pouco, apenas tempo suficiente para garantir que estava seguro. Quando finalmente desceu, já o sol brilhava laranja, algumas nuvens surgindo por detrás da montanha. Os dois cruzaram o olhar sem que alguma palavra fosse pronunciada. Daniel abriu a mochila, retirou duas sandes oferecendo uma a Guilherme. Quando este declinou, atirou-a para o chão, para o contentamento dos corvos e outras aves.
Voltou-se para a bússola, seguindo o norte indicado.
— Mas o caminho não é direto — suspirou quando viu o penhasco em frente.
— Nenhum caminho é.
Anuiu e prosseguiu. Entraram por um carreiro secundário, onde os ramos eram altos e espinhosos. Os tornozelos de Daniel, já destruídos pelo caminho anterior, imploraram que parasse. Porque temos que seguir este caminho cheio de obstáculos? Os pés queixam-se com cada passada, as pernas imploram para que eu pare, até as mãos se tornaram uma tapeçaria de cortes.
— Gui, já não aguento isto – disse Daniel —, o caminho é demasiado íngreme, a noite aproxima-se e estou esfomeado. Não trouxe comida suficiente para os dois.
O vento soprou-lhe no rosto no exato momento em que uma nuvem tapou o sol. Guilherme estava à frente, os olhos dele colados nos de Daniel. Naquele momento era como se nada de mal tivesse acontecido nos últimos anos e cada dia de luta não fosse mais do que invenção da mente. Ouviu-se uma explosão ao longe, seguida por um clarão branco. Daniel olhou para cima, para o sol que se escondera por detrás de um manto cinzento escuro.
A tempestade alcançara-os e vinha indomável.
— Daniel — começou Guilherme, voltando-se na direção do pináculo -, tens que parar.
Respirou fundo, inalando a humidade que os rodeava a toda a volta. A expressão no rosto de Guilherme mudara com o tempo. Perdera a alegria do sol, com a vivacidade do meio-dia a ser substituída por uns olhos semicerrados e inexpressivos. Daniel sabia o que estava a acontecer. Pela primeira vez na vida, Guilherme estava a escolher o caminho responsável. Escolhendo descer a montanha durante uma trovoada, em vez de subir em direção às garras de um deus caprichoso.
E isso estava a destruí-lo. Muito mais do que a doença, muito mais do que a própria morte certa alguma vez fizera.
— Não percebo, Gui. Durante dois anos passaste a vida a entrar e a sair do hospital e, no entanto, nunca, em todo esse tempo te vi uma expressão mais desgostosa do que a que tens agora. O que é que esta montanha tem que tanto te atrai?
O desgosto transformou-se num sorriso amargo quando outro relâmpago caiu ali perto.
— É simplesmente uma questão de memória. Visitei este lugar quando era criança e queria voltar a vê-lo. Contigo, desta vez…
— E a bússola? Nunca me disseste como a arranjaste.
— Não. Não é uma história especialmente emocionante. Mas está relacionada com este lugar — ele inclinou a cabeça em direção ao pináculo. — A primeira vez que fiz esta subida, vim com o meu tio. Foi a pessoa que me ensinou tudo sobre natureza, exploração e campismo. Também foi ele que me deu a bússola, precisamente durante essa viagem.
Uma lufada de vento frio fustigou-lhes as faces, trazendo as primeiras gotas grossas de chuva. Guilherme desviou o olhar para o trilho lamacento que se estendia abaixo deles. O sorriso amargo desvaneceu-se, dando lugar a uma melancolia antiga, mais profunda do que a própria tempestade.
Outro trovão ecoou, fazendo a terra vibrar sob as suas botas. A chuva começava agora a cair com intensidade, misturando-se com as lágrimas que escorriam do rosto pálido de Daniel. Ele olhou para o topo, depois para as suas mãos trémulas, e finalmente para Guilherme. Ele via o homem à sua frente — o homem que amava mais do que a própria vida, o homem que o desafiava todos os dias, cuja presença conseguia cansá-lo ao mesmo tempo que molificava a dor interna. Tirou a bússola do bolso e ofereceu-a a Guilherme.
Este estendeu a mão, os dedos dissolvendo-se numa neblina ténue.
— Não lhe consigo pegar, Daniel.
— Eu sei que não — garantiu Daniel, a voz firme contra o rugido do vento. Guardou-a no próprio bolso, colocou a mochila às costas e deu um passo em frente. — Quero lá saber desta tempestade. Nós não vamos descer coisa nenhuma, Gui. Eu não vou descer. Por ti, vou em frente. Como eu sei que irias se os nossos lugares estivessem trocados.
— Daniel, a tempestade… — tentou protestar Guilherme, mas Daniel interrompeu-o, virando-se de costas e encarando-o com uma máscara de orgulho no rosto.
— Guia-me o resto do caminho, Gui. Vamos terminar isto juntos…
Guilherme agarrou-o pelo pulso, apanhando apenas ar e chuva.
Durante um instante, nenhum deles se pronunciou.
A montanha rugiu ao redor deles, indiferente às palavras que tinham ficado por pronunciar.
— Não quero que morras — admitiu.
Por muito tempo o silêncio consumiu-os, as mãos de Daniel agarrando-se a um passado que não voltaria. Ele ergueu-se na tempestade, deixando que a chuva lhe lavasse o rosto, e fitou-o com a paixão que os unira em todas as vidas que tinham vivido e nos momentos que o tempo lhes roubara.
— Eu também não queria…