As Mãos do fado controlam tudo, até os deuses
AS MÃOS DO FADO CONTROLAM TUDO, ATÉ OS DEUSES. É uma expressão de origem desconhecida, mas cujo peso se faz sentir em todos os seres. Como dita o velho provérbio, é o destino que se oculta por detrás de cada desfecho, de cada decisão e de cada erro daqueles que ousam escolher. Desde o instante do nascimento até ao último suspiro, ninguém escapa ao seu alcance.
Não pensem, contudo, que isso torna o mundo um lugar simples, onde as consequências deixam de importar ou a violência pode ser justificada pelo domínio do destino. Embora as mãos dos reis estejam presas às mesmas forças que guiam os deuses, as suas guerras, as suas conquistas e a sua sede de vitória pertencem inteiramente ao desígnio mortal. O Fado pode traçar o caminho, mas não absolve quem o percorre.
Abram a primeira página e entrem num mundo onde a violência sempre reinou, e onde a honestidade, a bondade e o desejo de ser melhor são, ao mesmo tempo, antídoto e veneno.
O MUNDO DE ORBIS
Orbis é o quarto planeta da quarta estrela da constelação Adamante. Contudo, nada disso interessa ao comum dos seus habitantes: a maioria não sabe ler nem escrever, muito menos compreender a vastidão do universo. É um mundo cruel, não tão diferente do terceiro planeta do nosso próprio sistema solar, onde a lei do mais forte impera e qualquer sinal de fraqueza é uma sentença.
Este planeta colossal alberga uma miríade de criaturas exóticas, inexistentes em qualquer outro canto do cosmos. Pelo menos, até agora.
Abram os olhos nas extensas planícies que rodeiam Cento, a capital do Império Nera, e contemplem um cenário que só pareceria possível nos sonhos mais febris de uma criança: estegossauros de três tonalidades vagueiam livremente, guiados por pastores em armaduras de aço empunhando lanças pesadas. Mais ao norte, mamutes percorrem a tundra gélida de Nordälvél, transportando no dorso não apenas o seu espesso pelo, mas também os guerreiros mais bravos da humanidade.
Por todo o lado, a convivência entre os humanos e estas criaturas, que muitos julgavam extintas, é uma constante. Contudo, essa aliança está longe de ser harmoniosa. Da mesma forma que um cavaleiro cavalga para a guerra, também os maiores inimigos do Império, os Parnassianos, avançam montados em hordas de toxodontes, brontotérios e paquicefalossauros. Lançam a sua força colossal contra as fileiras do antigo rival, transformando o campo de batalha num massacre absoluto.
O ELO ENTRE ANIMAL E HUMANO
Os Mistayas do Império dizem que o elo nasceu de um pacto de paz entre Venadi, o Caçador, e os primeiros animais, após uma grande guerra que vitimou a filha do deus. No norte, as Memórias de Saksi afirmam que este se deveu ao sacrifício da Rainha dos Mendigos, a primeira filha de Astris. No seu pesar, animal e humano uniram-se num só, com os seus corações interligados para toda a eternidade.
Na Cidade Santa de Diwi, os Filhos de Zulhaestra insistem no seu direito divino de governar sobre as feras. Para eles, o elo não passa de um decreto, e as noções de companheirismo e ligação entre seres são motivo de escárnio.
A verdade, contudo, encontra-se algures entre estas duas visões. O que é inegável é a ligação extraordinária que pode surgir entre uma pessoa e um animal, seja ele qual for. Pouco importa se se trata de um gigantesco colosso de quatro patas, como um dinossauro, ou de um minúsculo escaravelho escondido entre as folhas. Desde que possua uma alma, existe a possibilidade de um elo se formar.
Permanece incerto aquilo que é necessário para criar um elo. Algumas pessoas passam toda a vida sem sequer se conectarem com um, enquanto outras recebem, desde o nascimento, o dom de um companheiro que caminhará ao seu lado até ao seu último suspiro.