O Bicho-da-conta que teve a coragem de estudar
João era o filho mais novo de uma família numerosa. Fora criado pela mãe desde a eclosão, tendo de sobreviver nas margens inóspitas do rio sem fim, encolhendo-se numa bola para escapar tanto aos monstruosos predadores como às mãos de gigantes curiosos. Durante muito tempo, acreditou que a sua vida se resumia àquilo: uma luta incessante pela sobrevivência num buraco debaixo do solo.
Até que, um dia, enquanto as nuvens projetavam as suas primeiras sombras sobre uma cidade em festa, viu o preto. Desceram da montanha de pedra, para lá do rio: uma multidão mais numerosa do que os corvos no céu, com cantos altos e estrondosos. O chão dançou à medida que se aproximavam; cada um deles era, por si só, um gigante. Enquanto a sua família se refugiou nas tocas, João permaneceu onde estava. Ergueu-se do buraco e apoiou-se nas pernas traseiras. Aspirou os aromas dos gigantes: o rasto de perfume que o deixava tonto, o fedor a bebida nas suas roupas e cabelos. Dançavam sobre o chão ensopado como se os mares a seus pés não passassem de gotas de água, uniam-se de forma exuberante, os seus braços enlaçando-se mutuamente, numa demonstração de absoluta concupiscência.
Foi nesse momento que ele entendeu.
E se atreveu a sonhar.
Regressou para junto da família com um sorriso estampado no rosto. Com os braços abertos em júbilo, as pontas das suas antenas tremendo de euforia. A família estava sentada para o jantar: folhas em decomposição acompanhadas de cogumelos, e a sua mãe servia, um a um, os seus quarenta e três irmãos e irmãs. O barulho era quase tão intenso como a música do mundo lá fora: três irmãos cantavam uma melodia ao sol, enquanto dezasseis irmãs se queixavam, cada uma à sua maneira, do sabor dos cogumelos. Sentado à cabeceira da mesa, o João pediu silêncio à família batendo na madeira.
Calaram-se.
Então, ele contou-lhes.
E a mãe não gostou.
Gritou, chamou-lhe todos os nomes que lhe vieram à cabeça: imbecil, um caso perdido. Mais do que tudo, chamou-lhe tolo por permitir que tais ideias se enraizassem. Os seus irmãos não foram muito melhores; riram alto, troçaram da sua inteligência ou foram mais além, chegando mesmo a desejar abertamente a sua ruína.
João não era, para dizer o mínimo, o membro mais querido da família.
Frustrado, soltou um suspiro tão gélido que os cinco irmãos sentados ao seu lado chegaram a ficar paralisados durante alguns minutos. Depois, levantou-se, virou-lhes as costas e subiu em direção ao mundo dos gigantes negros. Permaneceu fora do seu campo de visão, escondendo-se entre uma longa folha de erva e um dente-de-leão muito corajoso, a quem chamava Fábio. Ao encostar-se à folhagem de Fábio, sentiu um toque suave no ombro. Esperando ver o rosto da mãe, não se virou, e ficou surpreendido ao ouvir o eco do cricrilar de Amido.
— O que se passa, João?
João continuou a observar os gigantes enquanto uma delas — que ele supôs ser fêmea — saltava para as águas frias do rio. O salto espantou os pássaros, e ele agradeceu-lhes por isso.
— Quero ser como eles.
— Um gigante? — perguntou Amido, dando um passo em frente para ficarem lado a lado.
— Um gigante de preto, livre, feliz, que pode mergulhar no rio sem ter de se preocupar com os patos. Alguém que pode ir para qualquer lado, viver qualquer aventura, escolher qualquer sonho.
Amido sorriu. Era um sorriso caloroso, capaz de desarmar todos os habitantes do parque.
— O que queres ser é um estudante.
— O que é isso?
— Um estudante? É alguém que está a estudar, não. Pelo menos é o que se diz por aí. Mas alguns acham que pode ser mais. Que qualquer um pode ser um estudante.
— O que preciso de fazer? — questionou João, na ponta dos pés.
Amido sorriu outra vez, agora transformando-o num riso, um tanto ou quanto arrogante. Inclinou-se na direção de João, as suas antenas erguendo-se bem acima dele.
— Tens de chegar até ali — disse, apontando na direção do pináculo da montanha de pedra, diretamente para a torre que cantava ocasionalmente.
João acompanhou o movimento da mão de Amido, deixando-se levar pela viagem que o aguardava. Amido podia até tentar dissuadi-lo de embarcar naquela aventura, mas nada seria capaz de o deter agora. Bastou-lhe cruzar o olhar com outra gigante de negro: uma fêmea de cabelo curto e semblante gentil, para ter a certeza absoluta. Por mais que a mãe se queixasse, e independentemente da forma como os irmãos o tratassem, ele escalaria a grande montanha de pedra e alcançaria o cume; pois ele tornar-se-ia mais um gigante sobre aquela terra, e a sua carapaça seria negra como as penas dos corvos.
Havia apenas um pequeno problema.
Não fazia ideia de como lá chegar e as palavras de Amido pouco o ajudaram.
— Atravessa o rio e segue a multidão de onde ela vem. Depois sobe, sobe, sobe, até chegares ao topo.
João caminhou até à berma da água e parou. Colocou a ponta do pé dentro da mesma, mas não conseguiu fazer mais que isso. A água não só estava infestada de gigantes, como estava gelada e agitada. Olhou em frente, sendo levado pelas luzes aliciantes no outro lado. Não tinham passado nem cinco minutos, e já pensava em desistir. O que diria a sua mãe? E os seus irmãos? Amido, que ainda o observava de longe, com o seu cricrilar irritante em uníssono com as canções dos gigantes.
Olhou em redor em busca de uma forma de atravessar. Mais de uma vez vira gigantes a remar sobre uma espécie de tronco fluorescente na água; no entanto, agora não havia nada do género. Como é que eles faziam isso, então? Certamente, nem todos aqueles gigantes tinham simplesmente atravessado o rio a nado, pois não? Se havia um caminho, era uma possibilidade remota, algo que levaria uma vida inteira a percorrer. Restava-lhe apenas uma coisa a fazer: seguir em frente e encontrar um caminho por entre os rápidos.
Acompanhou o curso do rio até que as luzes amareladas da atividade dos gigantes se tornaram avassaladoras. O som da música também desapareceu, dando lugar a algo cada vez mais agressivo. Quanto mais caminhava, mais difícil se tornava cada passo para os seus pés. A lama encharcada substituiu o solo da sua terra natal; pelo cheiro, deduziu que aquela lama estava impregnada pelas bebidas dos gigantes. Tal como os perfumes que eles adoravam usar, o fedor da bebida fazia-lhe latejar a cabeça.
Lutou para continuar, perdendo minutos preciosos enquanto botas pesadas pisavam o mundo à sua volta.
Bastaria mais um instante e ele seria esmagado sob o peso delas, mas, felizmente — ou talvez graças a algum tipo de intervenção divina —, conseguiu alcançar a pedra.
Ah, a pedra. O primeiro tijolo, o primeiro obstáculo na sua aventura que ele poderia realmente ultrapassar.
Bastou um momento, um segundo de inspiração, e lá foi ele, subindo a pedra até alcançar outra, e depois outra, e outra. Ele podia vê-la, a pedra final. No total, cinco escaladas verticais, cada uma seguida de um percurso horizontal. Ofegou ao chegar à quinta pedra, a excitação percorrendo-lhe o corpo; estava lá, ele sabia.
A sua viagem estava prestes a terminar, e mal tinha passado uma noite.
O que diria a sua mãe agora? Quando ele, João, se tornasse o mais novo aluno da montanha?
Só que não havia qualquer pico no final. Apenas um mar infinito de pedra negra, luzes vermelhas e verdes a piscar, e as bestas do tamanho de planetas que corriam freneticamente em linha reta. Assustado, deu um salto, transformando-se numa bola. Normalmente, esta era proteção suficiente contra a maioria dos monstros em casa, mas não havia forma de saber que tipo de monstruosidade poderia encontrar. Ou pior, que poderia encontrá-lo a ele. Como o fungador de quatro patas, uma criatura que só vira ao longe no parque, mas cujo fedor lhe era muito familiar.
A narina húmida da coisa tocou-lhe na carapaça e depois o que só podia ser a sua língua rechonchuda arranhou-o de uma borda à outra. Escondido dentro da sua bola, não conseguia ver o que estava a acontecer. Ficou enjoado, como se o seu corpo se movesse sozinho.
Não dava para saber onde iria parar. O tempo passava à sua volta, e os ruídos da cidade alteravam-se à medida que a criatura de quatro patas seguia os passos de um gigante. João ouvia a voz do gigante, mas não conseguia distinguir as palavras; pelo tom, percebeu que o gigante exercia um certo controlo sobre a outra criatura.
Por fim, o ar aqueceu, a chuva ficou distante e um silêncio absoluto tomou conta de tudo. Abriu os olhos, esticou a carapaça e observou o ambiente. Era um mundo à parte, embora estivesse todo confinado à sua volta, com um teto sobre as suas cabeças. Teve de suster a respiração enquanto as suas perninhas começavam a descer pela pelagem felpuda da criatura. Tivera sorte: o bicho tentara comê-lo, mas a sua carapaça tinha ficado presa acima dos lábios.
Enquanto descia, deparou-se com a primeira fenda que viu. Ali, o ar estava corrompido e pesado de pó...
O local era também habitado por criaturas do seu tamanho. Três, para ser exato, embora nenhuma fosse da sua espécie. Havia duas criaturas prateadas, semelhantes a flechas e com o olhar a transbordar desprezo. A terceira criatura, no entanto, apresentava um aspeto muito mais familiar.
— Amido — murmurou João, correndo em direção ao seu velho amigo.
— Como? — respondeu a criatura, que João percebeu não ser Amido. Foi a voz que o denunciou — isso e o cricrilar ligeiramente diferente. — Chamo-me Atopo, amigo. E quem tenho o prazer de conhecer?
— Atopo? És idêntico ao meu amigo. Onde estou?
— Em casa do João.
— Não, não estou.
— Como é? — respondeu uma das criaturas prateadas, dando um passo na direção de João, com os braços estendidos numa expressão que evoluiu do desprezo para o escárnio absoluto.
— Eu sou o João — disse ele, o João. — E vivo com a minha família num buraco subterrâneo, muito longe daqui.
As duas criaturas prateadas entreolharam-se, mas foi Atopo quem falou:
— E porque estás aqui, João que não é o João?
— Quero ser aluno no pináculo da montanha de pedra. Quero vestir preto — a alegria que sentiu ao dizer tais palavras foi destruída pela chacota da segunda criatura prateada. João procurou algo a que se agarrar, mas Atopo já tinha seguido o caminho das criaturas prateadas.
— Algo como tu não pode ser aluno, outro João. És demasiado insignificante, demasiado irrelevante. Nem consegues escalar a montanha e chegar ao pináculo.
João não deixaria que as palavras de Atopo o detivessem. Se nem a mãe o conseguira dissuadir, que hipótese achava ele que tinha? Parou um instante para pensar, equilibrando-se na fronteira onde a luz do recinto encontrava a sombra do seu esconderijo. Passos pesados faziam estremecer o mundo à sua volta; a pele nua do gigante brilhava sob os raios amarelados que vinham do teto.
— Não vais desistir, não é? — A mão de Atopo pousou-lhe no ombro, parecendo mais pesada do que realmente era. — Criatura insensata, serás a causa da tua própria ruína. No entanto, tamanha bravura exige uma recompensa. Ou será imbecilidade, a ser castigada? Isso importa? Olha ali, estás a ver aquela grande porta de madeira. Corre na sua direção; mas corre o mais rápido que puderes, pois os sentidos do gigante de quatro patas são muito mais apurados do que os da outra espécie.
Seguiu a direção para a qual Atopo apontava. Como o grilo dissera, uma gigantesca estrutura de madeira erguia-se para além do alcance da sua vista. Um pináculo, que atraiu a atenção de João como líquen húmido ao amanhecer. As suas pernas começaram a mover-se naquela direção, antes mesmo de Atopo proferir a sua sentença.
— Do outro lado, encontrarás um mundo de escuridão eterna, exceto quando os gigantes marcham do céu invisível para as profundezas lá em baixo. Deves subir as coisas a que chamam escadas, até chegares a uma clareira onde duas portas bloqueiam o teu caminho. Entra pela que tem um símbolo semelhante a um ovo cortado ao meio e aguarda. Encontrarás um objeto feito de couro. Esconde-te dentro dele enquanto o gigante o leva para o pináculo, para o seu próprio mundo particular.
— Agora vai, João. Vai e não olhes para trás.
Um, dois, três. De que lhe valia contar? Era um bicho do solo, não sabia matemática. O que sabia era o perigo que enfrentava no momento em que inspirou fundo e começou a correr. Só tinha uma direção: em frente. Rumo à madeira gigante e ao mundo atrás de si. João tinha de atravessar uma grande planície de pedra branca. Noutra vida, olharia para o mundo a seus pés com apreensão. Tratava-se, afinal de uma aventura que ele sabia nenhum membro da sua família alguma vez tentaria viver. Especialmente, quando tão próximo estava ele do gigante fungador de quatro patas. João tremeu quando este passou a correr por ele. Como fizera no parque, fechou-se numa bola, as lágrimas oleando os segmentos da casca.
Não pode ser, não pode ser aqui.
Um.
Dois.
Três.
Por instinto aprendeu a contar. Nada aconteceu. O chão parou de tremer, o odor molhado desapareceu. Desfez a bola, olhando ao redor em busca de respostas. Atrás de si ainda conseguia ver Atopo e as duas criaturas prateadas. Todos o fitavam; Atopo com os braços esticados, ordenando-lhe que se apressasse. Mas não foi pelo apoio do grilo que ele correu. Foram as criaturas prateadas de braços cruzados, rostos perdidos na distância, que ele sabia que pingavam arrogância. A mesma expressão que vira nos irmãos, nalgumas irmãs.
Na mãe.
— Mãe, nem tu acreditas em mim…
E voltou a encarar a estrutura de madeira. Respirou fundo como se fosse a última vez, viu o seu rosto desfocado refletido no chão. A cara que o olhava, a juventude perdida. Quantos meses passara enfiado naquele buraco, escondido de predadores que não existiam, só porque os irmãos lhe diziam que seria comido? Quantos momentos perdera, oportunidades que não recuperaria. A vida dum bicho-da-conta é curta, mais vale aproveitá-la, atravessar o mar de mármore, entrar pela escuridão adentro e começar a trepar as ditas escadas.
— Mãe, olha para mim mãe, estou a trepar. A trepar rumo ao pináculo da montanha.
Mais um momento de exaustão. O corpo gritou quando ele alcançou o piso final e viu dois símbolos acima de si. O mais próximo tinha uma forma como um grilo deitado de lado: três patinhas esticadas; mas era para o outro lado que ele queria ir. João seguiu na direção do ovo cortado ao meio, e como fizera antes, entrou pela concavidade. Do outro lado deparou-se com um mundo inquietantemente similar, simultaneamente díspar. O chão era igualmente pedra branca, só que todo o resto era mais… madeira, por assim dizer. Enquanto no mundo em baixo as estruturas eram na sua maioria brancas ou pretas, com vários vasos, figurinhas douradas, e plantas; aqui o mundo parecia mais pequeno. João viu-se rodeado por estruturas de madeira até onde a vista alcançava, todas elas repletas de coisas de papel na vertical.
João não teve tempo para se perder nas vistas.
À sua frente, na sombra de uma outra estrutura de madeira estava o objeto de couro que Atopo lhe contara. Apressou-se antes que algum gigante tivesse tempo de o encontrar e espezinhar, soltando um suspiro de alívio quando conseguiu entrar.
Ali, naquele espaço quente e sossegado, João teve tempo para fazer algo que até então não conseguira. Esticou-se e relaxou. A luz entrava por uma minúscula fresta por cima dele, iluminando escassamente as redondezas. Estava rodeado por papel, objetos compridos que cheiravam a tinta derramada, algo metálico cuja presença o incomodava e uma aranha gorda.
Quando viu a aranha gritou.
Porque claro que gritou.
Virou-se de sobressalto, tentando escapar pelo buraco por onde tinha entrado. Mas já era tarde demais, pois a aranha era muito maior, mais forte e mais rápida. Ela envolveu-o nos seus braços — todos os oito — e puxou-o para si, em direção às quelíceras. Vinte olhos encontraram dois: predador e presa.
— Quem éssssssss tu… e o que fazesssssss aqui?
— Eu… — João debatia-se nas garras da aranha, com a carapaça a estalar sob a força do predador. De que servia, então, uma carapaça que não resistia ao aperto de um predador?
— Bit’cho. Nojooooo. Esta é a minha casaaaaa, saíiii.
— Desculpe, senhor aranha. Eu só quero trepar o pináculo.
— Bitttttt’cho, estúpidoooo. Saíiii da minha casaaaaaaaaa.
João sentiu tonturas, e não era difícil perceber o motivo. A aranha começou a fazê-lo rodar, envolvendo-o naquela seda aciniforme. Já tinha coberto metade do seu corpo quando ouviram passos, seguidos de um guincho estridente. De imediato, João soube do que se tratava: um gigante, daqueles mais pequenos e mais frenéticos.
— São elesssssss — sibilou a aranha — os humanosssss.
— Por favor, largue-me. Eu não quero problemas — respondeu João.
— Silênciooooo, bittttt’choooo.
Do outro lado da estrutura de couro, um eco agudo foi seguido por uma voz rouca. João ficou pasmado, pois no meio do caos, ouviu o seu nome sair da boca do gigante.
— … João… João…
Concentrou-se no som que vinha do couro. Não apenas tentando compreendê-los, mas também acompanhar o seu significado. Não deveria ser possível. A fala gigante era proibida debaixo do solo, dizia-se que abria um caminho diretamente para a perdição. Pelo menos era o que os irmãos sempre lhe contavam, e onde é que isso os levara?
Onde é que tentar compreender o levara agora? João estava completamente imobilizado, só com a cabeça por cobrir. Estendeu as antenas na direção da aranha, cruzou olhares com a mesma, sentindo o pavor nos seus olhos.
A aranha era um predador, mas face aos gigantes, até a mais poderosa tremia.
— Por favor, largue-me. Eu não quero problemas, só entrei aqui porque me disseram que este sítio me levaria ao pináculo.
— Ao pináculoooooo? Bit’cho, parvo e estúpido. Queres entrar na universidadeeeeee?
— Não sei o que isso é. Quero subir ao pináculo, ser estudante, usar o preto.
Se as aranhas conseguem suspirar, fazem-no de forma silenciosa, fechando cada um dos olhos individualmente e abrindo-se em uníssono. A aranha posou João no chão, mas, convenientemente, não o retirou do seu invólucro.
— Eu também queriaaaaaaa… — disse, a voz quebrada por lágrimas. Voltando-lhe as costas, começou a trepar por uma folha de papel. — Mas eles não nos deixammmmm… só abrem as portasssss para elessssss.
Ao chegar ao topo, ela prendeu a respiração por um segundo, com cada uma das suas oito patas estendidas de forma desordenada pelo corpo.
— Eu venho aqui todassss as noitessss. Para me lembrarrrrr do meu sonhooooo.
Com isso, continuou, deixando João sozinho com o papel e os seus pensamentos.
Este encostou-se a um canto, aninhando-se bem aninhado. As palavras da aranha ressoavam na sua mente: não nos deixam, só abrem as portas para eles. João olhou em frente, para a penumbra que o rodeava, e sentiu-se ainda mais exausto. Pensou no que deixara para trás quando decidiu tomar aquele risco. Já não se limitava a ver o rosto da família com desprezo, mas começava a considerar o que sacrificara.
Não tinha ponderado na possibilidade dos gigantes lhe barrarem a entrada. Não importaria o quanto se esforçasse para trepar, ou o número de predadores aos quais conseguisse escapar. Se não lhe abrissem a porta, seria tudo em vão.
Só que chega a um ponto em que já nada é em vão. Não lhe importava se a porta estivesse aberta ou fechada, naquele momento já não havia outro rumo a tomar. Ele olhou para cima, para o local por onde a aranha tinha desaparecido. Há quantas semanas é que ela se afundava naquela rotina fútil e melancólica? O desgosto não atolaria João, isso não.
E se a porta estivesse fechada? Ele iria abri-la!
A noite passou ao seu redor sem que nada de extraordinário acontecesse.
De madrugada o mundo voltou a tremer, uma luz amarela emergindo pela fresta superior. João encostou a cabeça à parede, tentando apanhar as palavras dos gigantes. Desta vez não ouviu o seu nome, só uma espécie de grunhido exausto. Aroma de comida quente impregnou o ar, com João a aperceber-se que não comia havia horas. Deu uma volta aos seus arredores em busca de algo comestível. A aranha não lhe deixara nada e ele duvidava que aquela estrutura de metal soubesse a líquenes.
Enquanto o seu abdómen roncava, limitou-se a aceitar o seu destino. Não era possível fazer uma omelete de decomposição sem algumas árvores em putrefação. E para quem já quebrara praticamente uma floresta, o que era mais uma árvore derrubada?
O mundo tremeu quando o gigante se aproximou.
João sentiu o chão de onde se encontrava levantar-se do chão propriamente dito. A caixa de couro oscilava no ar, descuidadamente. Agarrou-se a um papel para não cair, mas o pouco que tinha na barriga ameaçava sair.
Tudo parou quando o ar estagnou. João não sabia onde estava, mas sabia que estava rodeado de gigantes. De todos os lados, ouvia vozes, entrecortadas por berros e melodias irritantes. Algo começou a roncar e o mundo tremeu outra vez. Desta vez o baloiço foi mais contido, mas não menos aterrador. João enrolou-se numa bola, amaldiçoando-se pela posição onde se tinha metido. Não fosse o desejo de trepar ao pináculo, vestir o preto e ser estudante, e ele teria certamente desistido.
Seguiram durante quase uma hora. Uma das vozes do gigante elevava-se frequentemente acima das outras, com a frustração a transparecer em palavras ininteligíveis. João conteve uma gargalhada, pois isso fazia-lhe lembrar o temperamento explosivo da mãe.
Pararam. O seu caminho continuou. Mais oscilações, desta vez sem gigantes aos berros. O ar estava fresco, húmido. João conseguia sentir o orvalho pelo outro lado, escutava risadas tímidas de gigantes distantes, buzinas de máquinas e aves nos telhados.
Era bom voltar à rua.
Só queria saber em que parte da rua.
O seu mundo pousou com um estrondo e ele quase foi esmagado por um amontoado de papel. Seguiram-se as vozes dos gigantes lá fora, a luz penetrando quando o telhado se abriu. A mão do gigante entrou, pegou numa mão cheia de papéis que levou consigo. João permaneceu no seu silêncio contemplativo. Cheirava bem ali. A casa.
Oh não.
O pânico começou a instalar-se.
Não pensara nisso, tantas opções e essa escapara-lhe. Ao confiar nas palavras de Atopo, poderia ter cavado a sua própria pressuposta sepultura.
Trepou. Trepou da mesma maneira que a aranha tinha feito na noite anterior, alcançando a abertura. Viu o sol, inalou o aroma de árvores húmidas pela manhã, flores a desabrochar ao amanhecer. Era como voltar a casa: só que não. A vegetação não lhe era familiar, os odores — apesar de agradáveis e reconfortantes — em nada tinham a ver com aquele buraquinho de onde ele viera. Borboletas esvoaçavam ao seu redor, as suas cores um caleidoscópio de maravilhas; bailando ao redor da vegetação sem uma única preocupação.
João esticou-se na tentativa de perguntar a uma borboleta — uma criatura com asas azul-turquesa e manchas laranjas com pontos pretos —, onde raios é que se tinha metido; quando tropeçou, enrolou-se numa bola e rolou até ao chão, embatendo no caule de uma flor lilás. A vergonha foi muito maior do que a dor, mas ainda assim João não se abriu imediatamente. Aguardou até que a voz dos gigantes se dissipasse na distância, apenas para esta ser interrompida pelo familiar cricrilar dos grilos.
Um parou à sua beira; suspeitosamente idêntico a Amido.
— Amido? — indagou João, abrindo-se ligeiramente.
— Não — respondeu o grilo, gentilmente ajudando-o a abrir-se — o meu nome é Abaixo.
— Bolas. Como é que é possível vocês estarem em todo o lado?
— Saltamos. E tu quem és? E porque é que vieste na mala do Doutor João Luís até ao Jardim Botânico?
João ficou sem palavras. Não só não tinha sido levado até ao pináculo, como acabara num beco distante, rodeado por borboletas arrogantes e grilos insanos. Por entre suspiros, explicou a sua aventura a Abaixo, incluindo o encontro com Amido, Atopo, as criaturas prateadas e até a aranha.
Abaixo sorriu ao escutar a história da última.
— Eu questionava-me sobre o que tinha acontecido com a Francoellaaaaaa. Estou a ver que nunca foi capaz de ultrapassar a desilusão. Oh, pois, esse problema é dela, acho eu. — Abaixo encostou-se ao caule, cruzou as patas dianteiras atrás da cabeça e olhou para o céu, indiferente a tudo o que se passara.
Recusando a resignar-se, João insistiu.
— Não posso ficar aqui — gritou, levantando as antenas como se fossem membros anteriores — o meu sonho é a montanha de pedra, não… — fez um gesto amplo para os lados, varrendo o mundo com as patas —, não é isto. Desculpe.
Abaixo ergueu uma sobrancelha, ou o que passaria por uma sobrancelha num grilo.
— Porque me pedes desculpa? Eu estou-me a marimbar para a tua opinião.
— Oh.
— Estes visitantes chatos que entram aqui todos os dias. Credo, mas alguns de vocês são insuportáveis. Os humanos são os piores: invadem o jardim com os seus perfumes tóxicos, músicas aos berros e mãos torpes.
— Hum…
— Já não me chegam os que vivem aqui. As borboletas têm a mania que são rainhas do jardim porque conseguem voar entre as flores e têm a preferência na atenção dos tratadores; os escaravelhos andam por aí com a cabeça empinada, as mandíbulas sempre em busca de algo de novo para comer. Até os colêmbolos, bichos insuportavelmente irritantes, marcham como alunos bêbados na Queima das Fitas.
— Certo…
— E agora vem-me esta coisa… o que és tu sequer? Um inseto, como eu? Não me parece, conheço muitos insetos e tu tens demasiadas patas. Também não és uma aranha — Abaixo aproximou-se para cheirar João —, cheiras mal. Cheiras a podre…
— Pois…
— E és chato. Não te calas. — As suas patas eram coisas selvagens, agitando-se desordenadamente por todo o lado — está bem, está bem. Queres ir para a Universidade de Coimbra, grande camafeu? Então olha, estás a ver aquela flor? — apontou para uma flor amarela com riscas vermelhas no cimo de uma mesa — as minhas irmãs vão lá todos os dias: chama-se Aesquerda e Adireita. Mas não é com elas que tens de te preocupar.
— Okay…
— Trepa a mesa e aguarda até que o sol se comece a pôr. Ela vem sempre por volta dessa hora. Quando ela te vir, tenho a certeza que te levará com ela… a princesa tem talento para adotar coisas esquisitas como tu.
João não sabia quem era a princesa, nem sequer qual o seu reino. A mãe contara-lhe histórias de reis, rainhas, dragões e feiticeiros, mas sempre fora bastante restrita no que a princesas dizia respeito. Chamara-lhes mimadas, infantis e mais uma panóplia de insultos que João não se atreveria a repetir. Mas ele notara uma coisa, algo que agora não conseguia não ver.
Ao passo que Abaixo se demonstrara extremamente desagradável, a menção à princesa quase quebrou as suas barreiras. Era estranho, sim, mas despertou nele uma curiosidade que tinha de ser experienciada.
Seguiu na direção da flor. Encontrou as irmãs de Abaixo ao pé da mesma. Ao contrário do irmão, elas não cricrilavam, optando por um silêncio ominoso. Estavam ao pé do solo húmido da planta, mergulhando os abdómenes na mesma. João cumprimentou-as, apesar de elas o terem ignorado. Era sempre educado.
Isso era inquestionável.
Outra vez viu o tempo passar. O sol voou por cima deles, até que proclamou laranja e vermelho. Então, das infinidades do Jardim Botânico surgiu uma giganta. Só que esta não lhe era uma estranha por completo. Tratava-se, nada mais, nada menos, da mesma fêmea que ele vira vestida de preto. A giganta que o fizera abandonar tudo e seguir o seu sonho.
Estava acompanhada por um gigante macho, alto, de nariz comprido. Ela sorria, as suas mãos rodeando o vaso da flor. No momento em que se aproximou, tanto Aesquerda como Adireita saltaram para se esconder. João não conseguiu, contudo. Os bichos-de-conta não são grandes saltadores.
Os gigantes conversaram.
As palavras fluíram.
E João ficou em choque.
Pois ele entendia.
Entendia o que ela dizia.
Então era por isso que se tratava de uma princesa: porque falava com os animais.
— Olha, já viste isto? — disse a giganta, apontando na direção de João — é um isópode. Não costumamos vê-los no jardim. — O seu sorriso cativante tirou o fôlego a João, embora a expressão do outro gigante fosse de desprezo. — Não digas isso, João… não, não o vais pisar, endoideceste?
Com o maior cuidado do mundo, a giganta aproximou o dedo de João, pousando-o à frente. João não se moveu. O pânico já se instalara de tal maneira que nem se conseguiu enrolar.
— Não tenhas medo, pequenino, vou levar-te para um lugar seguro.
João e a giganta olharam-se e por um momento a pequena criatura sentiu-se como se estivesse perante uma figura divina. Ao redor, o mundo parou. Ele viu as borboletas pousarem, escaravelhos emergiram dos seus buracos em prostração, colêmbolos surgiam aos milhares, cada um, um ponto branco minúsculo no chão.
E se por momentos os olhares de todos se viraram para a gigante, o foco das criaturas do jardim era um e só um. Ele, João, bicho-da-conta, que subira ao dedo da giganta e a acompanhara até à rua.
Quando ela o tentou pousar no chão, ele recusou-se. Agarrou-se à ponta do indicador com toda a sua força, mãos minúsculas segurando-se como se fossem ganchos.
— Sai, pequenino.
— Não quero.
O ar escapou dos pulmões da giganta no mesmo instante em que o seu dedo se contraiu. Sentiu o cabelo dela eriçar-se com o vento e o corpo dela estremecer, embora o ar estivesse quente.
— É impressão minha, ou este isópode acabou de falar comigo — ela disse, falando para o ar. — Estou a ficar maluca, só pode.
João saltou, elevando as antenas para captar a atenção.
— Não. Não. Eu falei mesmo. — gritou, a voz estridente aos ouvidos da giganta. — Por favor, não me mande embora. Eu quero trepar…
— Ai agora tenho a confirmação, endoideci de vez. João, João… vem aqui, por favor. Diz-me que não sou só eu.
O outro gigante materializou-se ao seu lado. Tal como antes, a sua voz e as palavras por ele ditas eram completamente indistintas para João… o pequeno João, não o grande João. O grande João entendia as palavras do grande João, ou pelo menos assim achava o pequeno João.
— Falou comigo. Juro… — disse a giganta, apontando na direção do pequeno João com a outra mão — diz alguma coisa.
— Quem eu?
— Estás a ver? Ele fala.
O pequeno João não entendia nada do que o grande João dizia, para ele as palavras soavam como grunhidos; contudo compreendia pela expressão do gigante que algo estava particularmente errado. Não era só ele que escutava pela primeira vez uma voz de gigante, parecia que também ele era entendido pela primeira vez. O que isso significaria para a sua situação era algo que não conseguia imaginar.
— Por amor de Deus, João. Não estou maluca coisa nenhuma. O isópode falou! — a giganta suspirou, mas não o afugentou do dedo. Do seu pouso, o pequeno João reparou que a expressão dela se serenara. Os olhos dela cresciam à medida que se aproximava. — Quem és tu?
O pequeno João engoliu saliva que não tinha, ao lado da giganta, o grande João abanava a cabeça. Levantou os braços e virou-se, voltando para onde tinha vindo.
Foi então que algo de extraordinário aconteceu. A giganta pegou no pequeno João — que pode voltar a ser apenas O João — e colocou-o no ombro. Seguiu para fora do Jardim Botânico, caminhando vagarosamente. Quando uma brisa particularmente agressiva se levantou, ela ergueu a mão, protegendo João da mesma. Ainda assim ele agarrou-se ao seu casaco cor-do-vinho.
Ela entrou numa máquina gigante, sentou-se e pousou-o no lugar do lado. O mundo era como um castelo ao seu redor e ele um mísero peão. Uma infinidade de vozes assolou-o, sem que ele conseguisse entender de onde vinham. Olhou ao redor. Viu cinzento. Viu a luz do céu por uns buracos. Viu a giganta sentada, com as mãos à volta de um objeto redondo.
— Diz-me que não estou doida, tu falaste comigo, não falaste?
— Sim.
— Agora converso com um isópode… a Universidade está a dar cabo de mim — ela retribuiu-lhe o olhar curioso, com gentileza nos olhos — não sabes o que é, pois não? Porque haverias de saber… porque é que eu estou a falar com um isópode… o meu nome é Susana — ela olhou em frente, depois voltou-se para ele, depois outra vez em frente. O mundo estremeceu e João foi impulsionado para a frente; felizmente a mão de Susana foi rápida e salvou-o. — acabei de me apresentar a um isópode… um isópode que diz que se chama João.
João demorou algum tempo a reunir coragem para falar.
— Onde estamos a ir?
— Vou-te levar para minha casa… João.
— Desculpe, giganta.
— Giganta?
— Sim, pois. Eu quero… eu quero subir a montanha de pedra, vestir o preto. É o meu sonho.
Susana soltou uma gargalhada curta, um som que fez a máquina gigante vibrar. Algo rugiu como o bater de um coração que ele não conseguia ver. Ela olhou para ele de relance, ajustando os dedos à volta do círculo.
— Estás a falar da Universidade? Da Torre do Relógio. Dos estudantes com as capas e batinas.
João endireitou as antenas, erguendo o peito com todo o orgulho que era possível para uma criatura do seu tamanho.
— Sim. É o meu sonho.
Susana permaneceu em silêncio por uns momentos. Estendeu o dedo, deixando que João se apoiasse na sua unha. A pele dela era quente ao seu toque, em contraste com a aridez da máquina gigante. Quando ela voltou a falar, a voz era suave e cansada.
— Sabes… eu também vim para aqui com esse sonho — as suas palavras soaram cansadas e derrotadas e, pelo canto do olho, João apercebeu-se de um lampejo de tristeza que ela não conseguia esconder.
João fora educado numa casa com dezenas de irmãos e irmãs. Mais do que isso, no seu velho mundo conhecera uma infinidade de seres de várias formas, feitos e feitios. Desde lagartas coloridas que um dia se tornariam nas belíssimas e coloridas borboletas que enchiam o parque — ou comida de pássaro — a escaravelhos casmurros, mas trabalhadores, que chafurdavam sem descanso em busca de alimento para levar para as famílias — muitos dos quais acabavam ainda assim por se tornar em comida de pássaro —, e até gafanhotos arrogantes que chegavam quando estava calor, saltavam por cima dos outros e lhes roubavam a comida — e, claro, a maioria terminava na boca de um pássaro.
E nesses tempos, João aprendera algo. Algo que o acompanhou para sempre, mesmo que raramente o demonstrasse. Aprendeu a ver os sentimentos dos outros. A senti-los como se fossem os seus e a sofrer, conhecer e crescer juntamente. Não importava se falava com um bicho minúsculo e insignificante, um pato narcisista a nadar nas margens do rio, ou uma giganta sentada numa máquina de metal.
Não sabia se se atreveria a perguntar-lhe. Olhava à volta, maravilhando-se a si mesmo com a aventura que vivera em menos de um dia. Coragem não lhe faltara.
E a coragem é o combustível que faz girar um mundo estagnado.
— O que se passou? — perguntou, olhando para as próprias mãos, incapaz de encarar a giganta.
— Não sei que rumo levar… perdi-me, algures entre as aulas de Genética e Microbiologia. Quando comecei a estudar, queria trabalhar com animais, agora, já não tenho a certeza. Enfiei-me no Jardim Botânico, mas perco mais tempo a admirar as borboletas do que a estudar as plantas.
As palavras dela deixaram-no em completo silêncio. O que poderia ele dizer que não resultasse na sua expulsão imediata da máquina? João não passava de um isópode imprestável — como ela lhe chamara —, uma criatura do solo, metido em algo muito acima da sua capacidade. Olhando para trás, não era de estranhar que a sua família o tivesse chamado de idiota por abandonar a segurança do lar. Caramba, agora sentia falta daquilo. A cama quentinha à noite, comida na mesa todos os dias, pessoas com quem conversar, amigos com quem brincar.
— Estás a chorar? — perguntou Susana.
— Estava a lembrar-me do que deixei para trás.
— Os isópodes têm memórias…, mas tu falas, claro que têm.
— O meu sonho. O meu sonho é vestir o preto. Só isso. Chegar ao pináculo da montanha e ser estudante! — surpreendeu-se com a maneira como as palavras fluíram-lhe da boca. Por momentos a coragem retornou mil vezes mais forte do que alguma vez tinha sentido.
Susana deixou escapar um riso leve, sem qualquer ironia. Tornou-se numa melodia calorosa, aconchegante, que o envolveu como um invólucro quente. A máquina parou e o silêncio instalou-se, interrompido apenas pelos pássaros que cantavam pelas ruas da cidade de pedra.
— Vestir a capa… — murmurou ela, inclinando-se para o fitar de perto. — Conheço imensos colegas que andam por Coimbra sem metade da vontade que tu tens.
João ergueu a cabeça, as antenas tremeram.
— Engraçado. Hoje quando fui para o jardim, pensava que seria um dia como os outros. Agora estou aqui, fechada no carro com um isópode falante. Qual Pinóquio, qual quê. — Susana meteu a mão no bolso e tirou de lá um objeto retangular. Apontou-o na direção de João e depois virou-o, deixando que este visse o que estava do outro lado. — Já alguma vez viste o teu reflexo tão perfeito?
— Esse sou eu?
— Em todo o seu esplendor… acho que acabaste de mudar a minha vida, João.
O tempo passou, a vida prosseguiu e Susana continuou a matar-se de trabalho todos os dias. Com a ajuda dela, João conseguiu cumprir o seu sonho e tornou-se estudante. Ela levou-o às aulas no seu ombro, até lhe ofereceu um pedaço de folha para tirar apontamentos e a ponta de um lápis quebrado para ele escrever — ao fim de dez minutos na aula de Introdução a Métodos de Análise Estatística é que se aperceberam que ele não sabia ler nem escrever. Ela também o ajudou a alcançar o seu objetivo de vestir preto. Com muito cuidado, aprendeu a costurar e fez-lhe uma pequena capa e batina que ele usou com orgulho.
Os anos continuaram firmes e os ventos levaram Susana para longe de Coimbra. Instalou-se numa outra cidade, na costa de Portugal, onde se tornou na giganta que João a nomeara anos antes. Ocupou o seu tempo a estudar os isópodes e outros bichinhos pequenos, garantindo que eram sempre tratados com o respeito e o carinho que mereciam.
Quanto a João, o tempo foi cruel com o isópode. A natureza é indomável e levou a melhor sobre a sua biologia. O seu corpo foi cremado, mas o seu espírito jamais abandonaria Coimbra. Eternamente, sempre que um estudante fitasse a Torre do Relógio, lembrar-se ia do bicho-da-conta que tivera a coragem de ser estudante, mas que, acima de tudo, fora um sonhador.