A Pior Noite da Minha Vida

Eu estava a passear à beira da ria quando encontraram o corpo do padre.

Quer dizer, pelo menos é isso que disseram nas notícias, pois a realidade é bem mais escura. Estava a passear, sim e foi à beira da ria de Aveiro. Só que escondemos o detalhe de que fomos eu e a Bruna a esconder o corpo no moliceiro. Agora, não se assustem e definitivamente não me acusem de ter cometido um ato abominável sem ouvirem a minha história primeiro. Será curta, prometo.

Era de madrugada e nós tínhamos ido sair com o resto da malta. Jantámos no Revolta, perto do Fórum e fomos ao Dokk e ao Santos. Eu não gosto do Dokk, desde que vim estudar para Aveiro, sempre fui mais rapariga do Santos, mas a malta da empresa quis ir e eu não ia recusar, pois não? Jantámos. Dançámos. Bebemos. E quando demos por ela já passava da um da manhã. Ora, eu tinha um problema. O José tinha três. Eu tinha que acordar de manhã para ir trabalhar. O José tinha que ir para o Porto, acordar às cinco da manhã para ir treinar e depois descer para Aveiro para vir trabalhar.

Eu não acordei cedo. O José não foi para o Porto.

O José não foi para lado nenhum.

Quer dizer, é mentira. Foi para debaixo de água.

Antes do padre.

Por volta da uma e meia da manhã fomos todos para o carro. Tínhamos deixado o carro perto do Hotel Meliá, vá-se lá saber porquê. Eu estava alegre, a Bruna estava sóbria e ao nosso lado a Maria cambaleava um pouco, só que o José… o José nem se aguentava em pé. Eu e a Bruna tivemos que o segurar de cada lado, mas ele pesa oitenta quilos…

Pesava. Agora deve pesar mais, não?

Então, chegando ao carro, o que é que nós vemos à nossa frente? Dois indivíduos, homens, aos beijos encostados a um carro. O carro em questão era um SEAT Ibiza de 2005, com os plásticos de trás em falta. Era, mais importante ainda, o carro do José. Naquele momento nós não sabíamos ao certo o que é que íamos fazer com ele. A Maria sugerira deixá-lo ir, ideia de que eu e a Bruna discordámos. Ele era um chato, mas podia atropelar alguém no caminho, o que de si seria chato. Também recusamos categoricamente deixá-lo entrar em nossa casa. Eu vivia num T0 apertado e já ia ter de partilhar cama com a Bruna, que vinha de São João da Madeira. A Maria, quando resolveu falar, lembrou-se de que tinha o namorado em casa.

Surgiu-me uma ideia que na altura me pareceu genial. Íamos abrir as portas do carro do José, colocá-lo no banco de trás, trancá-lo dentro do carro e levar a chave. A Maria ofereceu-se para passar lá de manhã e entregá-la.

Se estão recordados, temos é um pequeno problema. Mais tarde descobrimos que o problema se chamava Xavier e Manuel, Padre Manuel. Pedimos-lhes com jeitinho que saíssem de ao pé do carro e nos deixassem colocar o José lá dentro. No princípio ele até estava a aceitar bem, contudo no meio da bebedeira deve ter tido um momento de sobriedade porque se levantou e começou a barafustar como se fosse um gato que não quer ir ao veterinário. Ergueu os braços e começou a bater-nos, chegando mesmo a dar um pontapé à Maria que a derrubou e por pouco não a mandou para as águas da ria de Aveiro.

Apercebendo-se da nossa situação, o Padre Manuel meteu-se no meio da confusão. Agarrou o José pelo colarinho da camisa e deu-lhe três chapadas: duas pela esquerda e uma pela direita, de tal maneira violentas que até a mim me doeram. Normalmente, isso seria o suficiente para acalmar alguém…

Normalmente, não estaríamos a falar do José, completamente embriagado e com noções de grandeza. Em vez de se acalmar, devolveu os ataques do padre: de punhos cerrados, dentes afiados e a ponta dos pés certa e aterradora. O padre prostrou-se com as dores, as mãos agarradas ao ventre enquanto o José o pontapeava desenfreadamente. A cena congelou-nos às três e, do outro lado, até o Xavier: um rapaz baixo, um tanto ou quanto escanzelado, tremia por todos os lados.

Foi a Bruna quem decidiu agir… foi a Bruna quem decidiu agir.

Repito-me, porque rever a cena enche-me de tristeza. Ela ergueu-se como uma rainha na direção do conflito. Agarrou o José pelo pescoço e puxou-o para longe do corpo inerte do padre. Só que era tarde demais. Para o padre, para a Bruna e para o José.

Escutem o que tenho para dizer, leiam as palavras escritas e levem-nas convosco para todo o lado, pois na amargura da piedade o demónio acordou no corpo dele. Vi o branco ao redor dos seus olhos ficar da cor do carvão, os seus dentes eriçarem-se como picos de um cato, o cabelo cair aos molhos para revelar um crânio grosseiro, da cor do inferno.

Eu tremia por todos os lados, a Maria rezava a um deus em quem ela não acreditava. Caída no chão, a Bruna segurava o rosto, gotas escarlates de sangue precipitando sobre o cimento. Então o José gritou, a sua voz era sibilante, a sua língua bifurcada, as suas unhas, garras, e o seu ódio infinito.

Nenhuma de nós sabia o que fazer.

Estávamos completamente desarmadas. Olhos nos olhos com o demónio que conhecíamos há mais de seis anos. Tentei lembrar-me das histórias de anjos e demónios que lera enquanto criança, ou de algum filme de possessões que me pudesse ajudar naquele momento. Só conseguia pensar em exorcismos, água benta, alho e a luz do sol. Mas ele não era um vampiro e o nosso padre jazia morto.

Com muito esforço, a Bruna conseguiu apontar na direção da mala do padre.

Diretamente para o cantil.

Corri, desviando-me de uma garra pela ponta dos dedos e agarrei no cantil vazio. A única coisa pior do que o medo que sentia, foi a frustração ao aperceber-me de que não tínhamos água benta. Mas a Bruna pensou de outra maneira, oh, se pensou. Bruna, és um génio e acompanhar-te-ei para o resto da vida.

Larguei o cantil, peguei o terço do padre e corri até à margem. Atirei o terço para o meio da água, ao mesmo tempo gritando e rezando para que o meu plano funcionasse. Só me faltava chamar a atenção do José, o que não foi difícil naquele estado. Insultei-o: a ele, à maneira como se vestia, à sua ética de trabalho… Palavras que queria dizer há anos saíram-me como uma cascata.

Ele correu na minha direção, braços esticados, garras apontadas. Eu, surpreendentemente calma, limitei-me a desviar-me para o lado. Um pé esticado depois, e lá caía o demónio das águas bentas da ria de Aveiro. Acho que não é preciso dizer o que aconteceu depois, pois não? Digamos que nós as três vimos o José dissolver-se vagarosamente, até que nada restou senão o metal dos suspensórios.

Restavam-nos dois problemas: o corpo do padre e o Xavier. Quanto ao corpo, resolvemo-lo facilmente: colocamo-lo dentro de um moliceiro vazio e soltamo-lo. Mas do outro lado tínhamos o Xavier. O Xavier que tremera quando o José começou a bater no Padre Manuel, o mesmo que nós víramos de braços abertos a receber a língua farta do padre, aparentava ter perdido todo o medo. Erguera o queixo, o nariz e o peito em simultâneo, e nos lábios manifestou-se um sorriso diabólico. Ele fez-nos uma vénia, como se cada uma de nós fosse uma figura da realeza e informou-nos que o seu nome não era Xavier, mas algo diferente, impossível de pronunciar.

Ouvi o meu coração.

Ressoava como um trovão. Depois, tudo ficou em silêncio, até que as chamas envolveram o seu corpo e as gargalhadas do abismo proclamaram o vencedor de um confronto dos infernos. 

Próximo
Próximo

O Bicho-da-conta que teve a coragem de estudar