Vamos tentar outra ver

Voltei a pedir três palavras, vamos ver se desta vez tenho um pouco mais de sorte. A primeira palavra é: Planta em vaso. Bem, infelizmente não especifica qual a espécie da dita cuja, consequentemente terei que ser criativo. Podia ir pelo caminho simples, escolhendo uma flor como uma rosa, um crisântemo, uma tulipa ou Deus me livre, um dente-de-leão. Mas sou biólogo, por isso vou-me armar em biólogo e fazer coisa de biólogo. Aqui, na nossa história, a nossa planta será a Dionaea muscipula. Imagino que este nome seja estranho para a maioria dos leitores, e aos que não estranham, questiono o que fazem no seu tempo livre. Resumidamente, trata-se de uma planta carnívora. Mas não de uma qualquer planta carnívora, a planta carnívora. Aquela coisa pequenina que aparenta ter uma boca com dentes afiados. Pensem nos jogos do Super Mario, e nas chamadas Piranha plants. Só que é real, exclusivamente verde, e minúscula. Agora à segunda palavra: terror. Dou graças a Deus. Planta carnívora num vaso não há de ser muito difícil de associar a um filme de terror. Especialmente se o protagonista for uma mosca chamada Albertina. Quanto à terceira: casino futurista…

Bem… bela merda, não é?

Não sei em relação a vocês, mas as minhas experiências com casinos resumem-se a três coisas, nenhuma das quais inclui entrar num casino propriamente dito. Primeiro, e quiçá mais óbvio, filmes. Segundo, e sei que não estou sozinho, jogos. Persona 5 (clássico), GTA, e claro, o casino mais famoso do mundo do gaming: o Game Corner nos jogos de Pokémon. Terceiro, e aqui tenho que demonstrar um pouco da minha cromice, documentários no National Geographic sobre segurança em casinos… procurem, é verdade.

Seja como for, comprometi-me a escrever uma história, ou pelo menos a relatar a maneira como tal surgiria. Primeiro de tudo, preciso de um protagonista. Como é que uno o terror, um casino futurista e a porra de uma planta carnívora? Voltemos à ideia da mosca Albertina. O terror não passa de uma questão de ponto de vista. Quando eu era miúdo eu tinha pavor da minha professora da primária, mas se hoje ela passasse por mim na rua, acho que nem reagiria. Por isso é talvez uma boa ideia pensar fora da caixa, e fazer uma narrativa sobre uma mísera criatura. Só há um problema. É que o casino – o nosso setting – é no futuro. O que sobrevive a tudo?

Baratas, porra. As moscas também? Talvez, mas vamos mudar o protagonista. Em vez da mosca Albertina – guardemos a personagem – usaremos a barata Dionísia. Porquê Dionísia? Alguém de vocês já conversou com uma barata? Eu já…

Sou biólogo. Há coisas que é melhor não questionarem.

E porque é que a Dionísia está neste casino? Para responder a essa questão temos primeiro de fazer outra pergunta: em que tipo de futuro vivemos? Um casino no espaço como em Mass Effect, ou um casino num deserto todo rebentado como em Fallout? Acho que a segunda tem mais piada, até porque assim podemos simplesmente descartar os humanos da equação. Portanto, temos aqui a história por detrás da história. Três mil anos no passado, a espécie humana não conseguiu manter a pila dentro das calças e rebentou consigo mesma. Com tudo queimado, só algumas criaturas conseguiram sobreviver. Ratos mutantes com três metros de altura, e dois pares de braços, e tetas que mais parecem velas a pingar. Comunidades de cefalópodes, que lentamente colonizam a terra árida e desolada. E um império de baratas sapientes. Estas últimas, devido à sua proximidade com os resquícios da sociedade humana, prontamente desenvolveram algo similar a uma sociedade. Tal como na nossa espécie, o peso da consciência é acompanhado por um desejo animalesco – compreendo a ironia – por sensação. O vício abunda por todos os cantos, propagando casinos, lojas de bebida, tabacarias e bordéis.

É num desses casinos que encontramos a Dionísia. Agora levanta-se outra questão. Porque é que a Dionísia foi ao casino? Para responder, temos que nos perguntar antes, quem é a Dionísia. Será uma mãe barata solteira, desesperada por dinheiro para poder alimentar as suas cento e quarenta e quatro crias? Ou uma mulher de posses, entrando num mundo decadente em busca de emoções fortes, já que a vida caseira a deixa entediada. Honestamente. Não gosto de nenhuma dessas opções. São banais e formuláticas. Outra opção, envolveria a Dionísia ser uma espécie de espiã, talvez uma ladra que invade o casino como no Ocean’s Eleven, Twelve, Thirteen, Eight, vocês entenderam. É ligeiramente menos genérica, sim, mas assim não é do meu agrado. Esta é, afinal de contas, a minha história. Vamos pensar…

Ah, brotou uma ideia que espero conseguir alimentar.

Dionísia, centésima nonagésima terceira filha de Cândida e de um macho que não interessa – as baratas nunca foram apologistas do matrimónio – nasceu com um sonho. Ser chefe de alta-cozinha, num mundo onde todos comem literalmente merda.

Já sei o que vão dizer – oh caríssimo, mas a narrativa do gajo que sonha ser x, y ou z, já foi feita milhares de vezes. Calma. Sim, a história da pobre Dionísia tem um je ne sais quoi de fórmula por isso temos que acrescentar algo que ajude a diferenciar e para isso, podemos pegar numa personagem que deixamos para trás: Albertina, a mosca num mundo governado por baratas. Não é muito difícil imaginar uma situação em que as duas cresceram juntas e formaram uma grande amizade. Uma ligação que que ambas julgavam eterna, contudo, entrou em conflito com a realidade em que viviam. Afinal de contas, as baratas dominavam o mundo, e as moscas, não passavam de meros servos, escravos ou pior…

Pergunta: o que comem as baratas? Resposta, toda a merda.

Questão: as baratas são canibais? Resposta, sim.

Dúvida: num restaurante de alta-cozinha, as baratas serviriam outras baratas? Resposta, provavelmente sim, mas também outras coisas.

Acho que já perceberam para onde isto vai? Então temos aqui a nossa história de terror. Dionísia, chefe de cozinha num casino futurista, vê-se forçada a fazer uma escolha entre o amor que tem pela amiga, e o seu sonho de infância. Será que vai optar por sacrificar Albertina ou o seu amor falará mais alto?

Relativamente à planta no vaso, é fácil de incluir na história. Poderá ser um ingrediente da receita ou até parte da preparação da mesma. Aqui conseguimos imaginar uma cena bastante macabra onde Albertina, traída pela amiga de sempre, se vê atirada para dentro das garras da D. muscipula e, lentamente, sente o corpo a dissolver-se. Primeiro as patas, as pernas, depois o abdómen e as asas até que finalmente a cabeça desaparece, levando consigo as memórias dos tempos felizes.

Sabem que mais? Um mundo – o nosso – já é um antro de sofrimento grande o suficiente e sinto que de vez em quando precisamos de um pouco de heroísmo, felicidade e acima de tudo bondade. Esqueçam a morte da Albertina e as plantas que dissolvem corpos. Nesta história, a planta num vaso não é uma mera planta, mas o dono do casino – sim, o dono, que usa dois caules para caminhar, arrastando o vaso atrás de si por todo o lado. Como os donos de todos os casinos, esta planta é egocêntrica, arrogante e extremamente gananciosa. Podemos acrescentar-lhe um bigodinho guidão – aqueles dos vilões nos desenhos animados – que ele torce de forma ameaçadora sempre que desce até às cozinhas para intimidar os funcionários.

Agora, falta outro detalhe. O que fará a história avançar? Será que a ganância do vilão trará a sua ruína, ou será algo mais abjeto a causar uma revolução nas cozinhas? É esquisito, não é? As motivações do herói e do vilão nem sempre são fáceis de escrever. Esta é uma planta bastante malvada – batizado de Florenzo por uma questão de simplicidade – que quer fazer algo maligno… o quê? Queimar um orfanato? Já foi feito. Demolir um bairro para construir uma autoestrada? Chaatooooooooooo. Hum… vamos torná-lo mais tridimensional. O Florenzo é consumido pela saudade de um tempo mais simples, quando era apenas uma planta sem consciência, sem desejos e com necessidades simples, sem nada com que se preocupar a não ser apanhar os raios de sol – que, ironicamente, têm sido mais difíceis de receber devido às nuvens tóxicas permanentes na atmosfera. Com essa finalidade, Florenzo começou a financiar o desenvolvimento de um medicamento para destruir as ligações nervosas do cérbero – as plantas têm cérebro? Não. Agora têm? Com certeza – eliminando a capacidade de formar pensamentos, ideias e reflexões. Ou seja, o que Florenzo quer é tornar o mundo num lugar mais simples. Ironicamente, não está interessado em propagar o seu remédio pelos cidadãos e também não olha para esta solução como uma potencial fonte de lucro descomedido. A única coisa que quer é simples: entorpecer os sentidos, voltar a ser uma planta num mundo em que as mesmas são regadas todos os dias, onde o solo é fértil com nutrientes e o sol brilha mesmo nos dias nublados.

Poderíamos deixar o Florenzo em paz.

Só que ele não padece da mesma vontade. Como qualquer cientista que se preze, tem de provar a sua hipótese e para isso precisa de testar a droga. Cobaias. Porquinhos-da-índia. Ratos de laboratório. Aí entram Dionísia e Albertina, amigas de infância, companheiras de várias aventuras, barata e mosca de braço(s) dado(s) e antenas ligadas. Dionísia trabalha na cozinha do casino, Albertina é funcionária de uma lavandaria num beco escuro. Até ao dia em que Albertina não regressa a casa e fica tudo nas muitas mãos de Dionísia.

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Uma história de três palavras