Uma história de três palavras
Pedi três palavras — um objeto, um local e uma emoção —, e eis o que recebi em troca: um garfo de plástico, um deserto de sal e vergonha. Era suposto escrever uma história… bem, lixei-me, não é? Ora bem, eu não tenho formação nenhuma em escrita criativa, aliás a minha escrita profissional é tudo menos criativa. Forçado a ser cientista, tentei dar uns toques de criatividade aqui e ali, apenas para ser rejeitado por pessoas que — apesar de tudo — só queriam o meu bem. Não eram eles os meus inimigos, afinal, mas sim o arcaico leitor no seu gabinete apinhado de artigos do tempo dos reis — de Roma, não de Portugal — que não gostava da palavra “devassa” numa tese de mestrado. Felizmente, um dia abri um caderno, escrevi umas porcarias e depois escondi essas porcarias porque tinha vergonha do que lá estava. Eram poemas de merda que, para um rapaz de dezanove anos pareciam Pessoa, se ao menos eu não fosse tão envergonhado nessa altura, quiçá ainda os pudesse ler para alguém. Infelizmente não sei onde está esse caderno, nem os ficheiros de Word para onde os transcrevi. É triste apercebermo-nos da facilidade com que aquilo que fazemos se perde. Um poema que voa com o vento, uma história cujo fim nos esquecemos antes de terminar, uma vida cortada demasiado cedo, quando ainda mal tinha começado. Foi nesses tempos de juventude e ingenuidade infinita que fiz um empréstimo sem garantia, e os juros ainda os pago todos os dias. Não foi dinheiro, não foi ouro, muito menos sal, foi algo pior e muito mais custoso: tempo. Pedi tempo, mas na realidade perdi-o. E porquê? Vergonha. Vergonha do que fazia, do que dizia, de quem era. A vergonha, bem, a vergonha vergou-me, fez de mim o que queria e um ano cresceu para seis e agora aqui andamos, vagueando sem rumo num deserto de sal, a minha pele em bolhas sem sombra nem descanso, os meus olhos a gotejar pelo oásis que não chega.
A cada passo, o sal queima-me a pele, enterrando-se cada vez mais fundo na minha carne, até pouco restar além do osso que existe sob a carne. Não tinha de atravessar este deserto que eu próprio escolhi, mas avanço implacável, independentemente da distância que me atormenta com uma árvore que sei que não existe, ou uma caverna no interior de uma montanha que pertence apenas à minha imaginação.
Carrego uma dor que não sabia possuir, até começar a escrever esta merda, e porquê? Porque fiz figura de idiota. Pedi a alguém três palavras miseráveis e a primeira que li foi a última que recebi. Vergonha. Vergonha. Oh, vergonha que tudo impregna, que se infiltra, que entra sem bater à porta. Bendito vampiro. Pelo menos tens a decência de pedir antes de te banqueteares com a minha carne. A vergonha, não. Oh, não. É pior do que um leão a descer sobre uma zebra ferida, mais persistente do que uma craca a parasitar uma baleia desafortunada. Ainda assim, tenho de a suportar. Viver com ela, apesar de mim próprio. Bebo-a como se fosse água, como-a como sobremesa depois do jantar, ou simplesmente deito-a do outro lado da cama vazia. O deserto é quente, o sal seca-me os lábios e faz-me desejar o oásis que nunca aparece. Procuro-o. Procuro libertação, mas por mais vezes que coloque Wonderwall no Spotify, a música acaba sempre e tenho de ouvir aquele anúncio irritante, porque sou pobre.
Agora perguntas: porque estou eu neste deserto, afinal? Simples. Porque quis. Podia estar em casa, na sala, a ver televisão, ou a ler qualquer livro que tivesse decidido ler naquela semana. Mas não. Claro que não. Vamos acabar com tudo por uma hipótese de atravessar um deserto de areia, rumo a um oásis que nunca chega. Saí do paraíso por minha própria vontade e pisei o inferno. E a pior parte? Apesar de toda a dor e sofrimento que o inferno me trouxe, eu nunca voltaria atrás para o caminho fácil da segurança, porque o oásis é felicidade, enquanto o comum é vergonha. Continuo. Caminho. Marcho. Foda-se. Corro. Corro para as dunas, através de um oceano vermelho escarlate e lâminas brancas que cortam a pele. E então. Eu vejo-o. Ao longe.
Uma grande palmeira, erguendo-se por entre as dunas, com as folhas a lançarem uma sombra sobre toda a planície. Sem fôlego, sem energia, com pernas mais semelhantes a ramos partidos, corro. Corro durante um ano, durante dois, durante todo o tempo que for necessário. Corro em direção àquela palmeira, ao lago cristalino que existe para lá dela, ao par de camelos que me implora para que me aproxime. Corro porque não tenho outra escolha. Mas não estou sozinho. Oh, não. Nem de perto. A vergonha corre ao meu lado. É mais rápida. Mais forte. Não precisa de descansar, de comer, de beber, de mijar ou cagar. Apenas precisa de existir. Como um fungo parasita, recusa-se a abandonar-me. Mas sabem uma coisa? Existe uma estranheza à minha volta. Esta vergonha que me acompanha há anos, a mesma que agora me segue pelo deserto, por alguma razão parece mais leve sobre os meus ombros. Não consigo explicar exatamente porquê, mas é assim que me sinto. Por isso continuo em frente, abrindo caminho para fora do deserto e em direção à esperança de um novo amanhecer, com a vergonha ainda comigo. Uma lembrança constante de um passado que não posso apagar.
Peço desculpa. Tal como eu tinha dito, este trecho era para exemplificar um pouco do meu método criativo. Acho que ainda posso fazer isso, não? Ainda não fui buscar a porra do garfo. Ora bem, mas também não é preciso muito. O protagonista está a ter a sua crise existencial — compreensível —, e depara-se com um objeto cor-de-rosa no meio do sal. Para por um momento, debruça-se e eis o que vê. Um garfo de plástico, perdido e abandonado. E agora? Como foi ali parar o garfo? O protagonista não sabe — óbvio —, mas isso não o impede de pegar naquilo e mete-lo no bolso das calças. Esqueci-me de dizer que ele está a correr pelo deserto de calças de ganga? Não questionem, a malta de São João da Madeira é assim, por isso é que são sempre esses que vão à Casa dos Segredos. Eventualmente, o protagonista alcança o oásis. Aí, depara-se com a mesma palmeira, o mesmo lago, e os mesmos camelos. Só que vê outra coisa para além disso. Escondida atrás de um dos camelos está uma figura completamente tapada. Ele aproxima-se devagar, chama pela figura, mas esta não responde. Pelo leve movimento de respiração, consegue perceber que quem quer que esteja escondido, está vivo. Será que é boa ideia? Boas ideias nunca foram o seu forte, por isso ele afasta as roupas que cobrem o corpo. É uma mulher. A mulher mais bela que ele já viu. E assim que o sol irradia sobre a sua pele, assim que a luz ultrapassa a proteção do tecido e ilumina os olhos escarlate e o cabelo preto, a mulher começa a gritar. O pior e mais assustador grito que ele alguma vez escutara. Depois, ela é tomada por chamas azuis e quando ele se tenta afastar, como vingança, ela puxa-o para perto de si e os dois ardem em uníssono. Moral da história: se vires um vampiro na merda de um deserto e o quiseres matar, ao menos afasta-te. Ah, e o garfo… o garfo que se foda.